Apresentação:
Neste Artigo, quem tem sua estréia como Colunista de "A História nos Trilhos", é o grande amigo Antonio Carlos Arruda, de Cruzeiro - SP, que vem engrandecer este Site. Fica aqui meu agradecimento a ele por nos brindar com seus belíssimos textos, escritos a partir de relatos de seu pai. Uma característica interessante os cerca: Trata-se de fantásticos relatos de história oral, um dos mais importantes "lados" da história a ser preservada, tornando o texto interessantíssimo.
Aproveitando os relatos que me foram enviados por ele, decidi editar a "segunda parte" da sequência de "A Laboriosa Classe dos Ferroviários", iniciada com o texto de Luiz José Navarro da Cruz, de Jacareí - SP. Em comum, os dois tem o universo dos gloriosos trabalhadores das ferrovias. Fica mais essa homenagem aos bons funcionários das ferrovias, os chamados Ferroviários com "F" maiúsculo.
Christoffer R.
Webmaster - ANPF
Maio de 2004 - N.º 21
Por Antonio Carlos Arruda
A Laboriosa Classe dos Ferroviários - II
Histórias da 25.ª Turma, sediada em Cruzeiro - SP

30 de Abril de 2004 - 150 Anos da Ferrovia no Brasil
A CURVA DO RONCADOR
Véspera do Natal de 1973!
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Foto da Locomotiva 373 acidentada, sendo encarrilhada com auxílio de macacos e fogueira de dormentes. Aqui, podemos ver a Laboriosa Classe dos Ferroviários posando para a fotografia, ficando assim para a posteridade este grande feito realizado com muito suor e imenso trabalho. Foto publicada no livro 127 Anos de Ferrovia, de Eduardo Gonçalves David. Da coleção particular do mesmo. |
O pessoal da conserva de deslocara para a cidade de Queluz, no intuito de receber o tão esperado pagamento do último mês do ano. A expectativa do Natal que se aproximava era grande!
O sol já se punha no horizonte, quando uma brisa quente se fez sentir trazendo prenúncios de que uma pesada chuva cairia dentro em breve. Densas nuvens começam a se aglomerar escurecendo aquela agradável tarde no Vale do Paraíba, logo grossos pingos de chuva começam a cair naquele solo quente e empoeirado, fazendo subir nuvens de vapor das pedras da linha.
Ao lado da Estação, a máquina do “lastro”, uma GE-U6B (a conhecida 30), aguarda pacientemente. Enquanto os funcionários recebem o pagamento, o maquinista Jair cochila ouvindo o tilintar da chuva sobre o teto da locomotiva, embalado pela cadência do motor Caterpillar.
Enfim, quando o último funcionário é dispensado, todos entram na apertada cabina da máquina que acaba por acomodar 12 homens, prensados de pé, entre os assentos do maquinista e do auxiliar.
E a U6B se põe em movimento com destino a Vila Queimada, sob o pesado aguaceiro que deságua sem cessar, naquela noite escura.
Área de muitos cortes, sujeita a barreiras, o maquinista já começa a ficar preocupado com o volume de água que cai torrencialmente e reduz a marcha da locomotiva ao se aproximar do local denominado “Curva do Roncador”.
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Alco RS3 "Canadense", provavelmente passando pela Linha de São Paulo, região do Vale do Paraíba. Foto: (?) |
De repente, numa fração de segundos, os trilhos desaparecem sob as rodas da máquina, que desgovernada tomba e cai ribanceira abaixo indo parar às margens das águas caudalosas do Rio Paraíba!! Somente não caiu no rio devido o atrito com as pedras, árvores e a grossa vegetação existente no local.
O grande volume de água descendo dos cortes, acabou por levar as pedras e terra que sustentavam a linha causando este grave acidente.
Diversos funcionários ficaram feridos, com costelas e clavículas quebradas, mas, felizmente não houve nenhuma conseqüência mais grave.
A 25.ª Turma, sediada em Cruzeiro, comandada pelo Feitor, Sr. Onofre, trabalhou arduamente, e com o auxílio do “Socorro”, com seu guindaste e “fogueiras de dormentes”, conseguiram recolocar a U6B nos trilhos após um exaustivo e perigoso trabalho que se prolongou por três dias, ininterruptamente.
Este acidente até hoje é relembrado pelos ferroviários da região, e a Curva do Roncador passou fazer parte também da extensa lista de histórias ferroviárias acontecidas na crítica região de Vila Queimada.
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Homenagem à Laboriosa Classe dos Ferroviários. Foto de um Ferroviário publicada na Revista Ferroviária, década de 50. Como disse o amigo Arruda: "São esses valorosos heróis anônimos das nossa ferrovias, que não podem jamais ser esquecidos." Cortesia: Christoffer R. |
SERVIÇO NO TÚNEL
A 25.ª Turma de Conserva, sediada em Cruzeiro, trabalha duro no túnel próximo à Lavrinhas, na substituição da dormentação. No interior do túnel, somente alguns “faróis” de bambu com querosene, e suas tochas amareladas e fumaça pardacenta, é que amenizam a intensa escuridão.
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Foto dos trabalhadores da Via Permanente trabalhando na Linha, provavelmente, no Vale do Paraíba - SP. Foto publicada na Revista Ferroviária, década de 50. Cortesia: Christoffer R. |
O forte cheiro do querosene queimado prevalece no ambiente e a fumaça preta enegrece os pelos nasais dos valentes ferroviários que ali trabalham. Tal desconforto se nota na respiração ofegante daqueles homens que carregam exaustos os pesados dormentes por entre as pontiagudas pedras do lastro.
Na boca do túnel fica um trabalhador vigiando um ponto mais elevado adiante dele; onde um outro, munido de um pano branco, observa atentamente os trilhos, para avisar a aproximação de algum trem. Dos dois lados observa-se a mesma cena!
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Foto do Túnel existente no km 247, entre Lavrinhas e Cruzeiro - SP, citado neste Artigo. Foto: Nelson Correia. |
Enquanto isso, a turma levanta os trilhos com pesados macacos mecânicos Simplex e vai retirando os dormentes podres, substituindo-os por novos que são perfurados por arcos de puas manuais e depois fixados aos trilhos com grandes talas e parafusos “tirefons”.
Um trecho de linha se encontra parcialmente suspenso pelos macacos e eis que o vigia da boca do túnel grita agitado, avisando que um trem se aproxima!
A correria é geral!
No interior semi-escuro a turma corre a retirar as ferramentas do meio da linha. Garfos, tenazes, socas, chaves-tirefon, voam pelos ares, enquanto o trem se aproxima rapidamente.
Algumas ferramentas acabam ficando no meio da linha, entre os trilhos, pois não há mais tempo de recolhê-las ! O pessoal corre para as paredes do túnel, colando as costas na laje fria, a poucos centímetros da máquina que passa cuspindo vapor e condensado, soltando longas tranças de fumaça preta. Os vagões passam ameaçadores (alguns arrastam perigosos e afiados pedaços de arames e vergalhões), enquanto a composição passa barulhenta por cima daqueles trilhos apoiados nos macacos que se afundam nas pedras, para pavor de todos!
Enfim o trem passa... Todos olham aliviados o último vagão se afastando lentamente e voltam depressa para as suas tarefas: um faz um furo aqui, outro aparafusa um tirefon ali, outro carrega um dormente acolá!
A fumaça da máquina que acabara de passar, complica ainda mais a situação, tornando o ar irrespirável, enquanto não se dissipa totalmente pelas duas bocas do túnel.
E a turma prossegue na árdua tarefa da soca, calçando e levantando a linha, até que novamente, novo grito se faz ouvir, desta vez do lado oposto!
Nova correria, gritos, ferramentas sendo jogadas, e o trem entra bufando ameaçadoramente, enquanto aqueles homens se comprimem novamente, na fria laje, observando angustiados os trilhos a se contorcerem com o peso dos vagões que passam.
Novamente retornam às lides, enquanto o trem se afasta deixando para trás um rastro de fumaça e calor!
Esta era a rotina diária destes valentes trabalhadores dos trilhos!
Heróis sem medalhas que, ora sob o sol, ora sob a chuva, na linha de frente, enfrentavam as mais vis condições de trabalho, num tempo em que sequer se cogitava em normas de segurança.
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Serviços na via permanente. Foto publicada na Revista Ferroviária, década de 50. Cortesia: Christoffer R. |
Bravos operários que com o suor de seus rostos, à custa de sacrifícios extremados que comprometiam a sua própria saúde, repetiam diariamente as cenas acima descritas por este Brasil afora, mantendo os trens sobre os trilhos na árdua missão da conserva da via permanente.
Nossa homenagem, pois a estes valentes ferroviários que simbolizo na figura de meu querido pai, o “Mestre Arruda”.
Veja também:
A Laboriosa Classe dos Ferroviários - I, por Luiz José Navarro da Cruz
Este Artigo é obra de Antonio Carlos Arruda, 43 anos, filho de ferroviário, que estréia como novo Colunista de "A História nos Trilhos". Nasceu às margens do Ramal de Bananal, na Bocaininha, quando seu pai trabalhava no alargamento de bitola daquele trecho. Arruda costuma dizer que o primeiro som que seus ouvidos ouviram naquela manhã de verão do ano de 1961, foi o apito de uma locomotiva a vapor conduzida pelo seu pai, que embora trabalhasse na via permanente, eventualmente dava férias para o foguista e assim acabava por conduzir a manobreira. Apaixonado por tudo que diz respeito à ferrovia, mas de uma forma muito especial pela Central do Brasil e pelo "Ramal de São Paulo". Viveu sua infância e adolescência sempre "na beira da linha", e apreciou de perto histórias que faz questão de contar. Diretor da Associação Brasileira de Preservação Ferroviária, Regional Cruzeiro, Arruda também atua como Guia nos trens turísticos operados pela ABPF, nas cidades de Passa Quatro e São Lourenço. Atualmente é o responsável pela área de Comunicação da Amsted Maxion (antiga FNV).
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