Abril de 2004 - N.º 20
Textos diversos
O Sesquicentenário da Ferrovia no Brasil - V
A Primeira Ferrovia inaugurada no Brasil

30 de Abril de 2004 - 150 Anos da Ferrovia no Brasil
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Ação da Imperial Companhia de Navegação a Vapor Estrada de Ferro de Petrópolis. Do Arquivo do Clube de Engenharia - Rio de Janeiro, publicada no Livro História da Engenharia no Brasil, de Pedro Carlos da Silva Telles. Livro da Coleção de: Manoel Marcos Monachesi. Cortesia: Jorge Alves Ferreira Jr., Juiz de Fora-MG. |
Pouco é destacado, mas já havíamos completado no último dia 5 de Setembro, 150 anos do primeiro teste experimental de uma Ferrovia no país. Neste dia, uma locomotiva, que provavelmente seria a de N.° 1 (tempos depois batizada como Baroneza em homenagem a esposa de Mauá, Dona Maria Joaquina), ou uma Locomotiva semelhante a esta, utilizada na construção da Ferrovia, percorreu em cerca de 4 minutos, os primeiros 2.815 metros de trilhos implantados até então. Neste teste experimental foram alcançados espantosos, para a época, mais de 40km/h! Mais abaixo, transcrevemos a matéria publicada no Jornal do Commercio, de 06 de Setembro de 1853, que relata este primeiro teste. Cortesia de Sérgio Augusto de Oliveira, Maringá - PR.
A Viação férrea começou a ser concretizada no Brasil quando Irineu Evangelista de Souza (1813 – 1889), o Barão de Mauá, recebeu em 1852, o privilégio do Governo Imperial para a construção de uma linha férrea entre a Praia da Estrela, fundo da Baía de Guanabara e a localidade de Fragoso, próxima à Raiz da Serra de Petrópolis. Sua importância teria sido muito grande como catalisadora de outras iniciativas que iriam surgir. Porém, alguns, como Nascimento Brito, vêem com certa reserva a importância creditada ao Barão de Mauá a respeito do desenvolvimento das estradas de ferro do Brasil. Alguns dizem, que houve até interesse político nesta iniciativa de Mauá.
A inauguração oficial da E.F. Mauá, se deu em 30 de Abril de 1854, denominação esta que partiu de D. Pedro II, mas na verdade seu nome oficial era Imperial Companhia de Navegação a Vapor e Estrada de Ferro Petrópolis. Tinha uma extensão de 14,5 km, e seu trecho inicialmente era compreendido entre a Praia da Estrela e Fragoso, no Estado do Rio de Janeiro. Em 16 de Dezembro de 1856, finalmente a ponta dos trilhos chegava a Raiz da Serra, ficando assim a ferrovia com 15,19 km
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Região da E.F. Mauá, já na época da Estrada de Ferro Leopoldina, com a Serra dos Órgãos ao fundo. Foto da Coleção de Alfredo Ferreira Rodrigues, de Pelotas-RS. |
O Porto da Estrela era a rota obrigatória dos viajantes que procuravam Petrópolis. A vila era servida por uma linha de barcos a vapor para o transporte de mercadorias e de passageiros. Com Mauá, houve a união das duas modalidades de transporte: Marítimo e Ferroviário. Um dos primeiros casos de transporte intermodal. Isso aconteceu devido a Mauá ter a Concessão para explorar também o transporte Marítimo, entre a Côrte, e a Praia da Estrela (Guia de Pacobaíba).
Uma grande curiosidade é que a solenidade para a inauguração da E.F. Mauá se daria no dia 23 de Abril de 1854, mas teria sido transferida devido ao mau tempo, para o dia 30 daquele mesmo mês por ordem do Imperador D. Pedro II, que fez questão de estar presente a tão importante ato, o que se verificou, conforme registram as notícias e crônicas da época.
As Comemorações
Todos estão focados puramente no ano de 2004, mais precisamente no dia 30 de Abril, mas o amigo Buzelin nos chamou a atenção no ano passado para que se iniciassem as comemorações já no ano de 2003. Lamentavelmente não foi isso que se viu das autoridades competentes. O pouco que se fez, realizaram em cima da hora, ao estilo "só para não dizerem que não fizemos nada...", como por exemplo a montagem de alguns metros de trilhos em Guia de Pacobaíba para a suposta visita do Presidente da República nesta data especial. No final das contas, nada acabou sendo realizado.
![]() Um dos últimos trabalhos heróicos da nossa primeira ferrovia foi o transporte de areia para a construção do Estádio Mario Filho (Maracanã). A areia era retirada ao longo da ferrovia e transportada ao cais da praia da Estrela. Daí, em grandes barcos, para o Rio. Deficitária ou não, teve a pequena ferrovia a sua utilidade até mesmo depois de velha, funcionando até 1964. Foto da Coleção de Alfredo Ferreira Rodrigues, de Pelotas-RS. |
Mas aí nos perguntamos? Porque não antes? E como vai ser depois? Esta segunda questão, só o tempo responderá. Basta lembrar que em 1954 houveram algumas grandes comemorações no Centenário da Ferrovia no Brasil, assim como em 1974 (120 anos). Na ocasião prometia-se a revitalização de Guia de Pacobaíba, quando chegaram a reformar a Estação ali existente, a casa do Agente, e criou-se até um mini-museu ali com esperanças até de no futuro levarem a Baroneza novamente aquela região, constituindo o núcleo inicial do que seria o futuro Museu Ferroviário Nacional e também transformando a antiga via férrea em atração turística. Na oportunidade ainda utilizaram uma locomotiva a vapor como monumento estático nos poucos metros de trilhos que existiam até então. Houve um grande evento, muito bonito, até lúdico, com algumas autoridades de Governo.
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Aqui vemos a Estação de Guia de Pacobaíba, e o estado precário da antiga ponte de ferro do cais, há muitos anos atrás. A situação pouco mudou. Pode ter sido feita alguma reparação cosmética, mas nenhuma restauração profunda, como um prédio histórico como esse merecia. Fotos: Coleção João Carlos Reis Pinto. Cortesia: Christoffer R. |
Foi também afixada no prédio uma placa de bronze, inaugurando o seguinte marco histórico: "Aqui em 30/IV/1854, nasceu a ferrovia brasileira, por iniciativa de Irineu Evangelista de Souza, Barão de Mauá. - Monumento Nacional (Decreto N.º 67.592, de 17/XI/1970) restaurado pela Rede Ferroviária Federal SA em cooperação com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. 30/IX/1974".
O tempo passou, e lamentavelmente os planos não foram executados. A Estação e a casa do Agente foram se degradando. O pequeno museu que ficava na Estação, foi depredado e saqueado. O cais do porto, cada vez mais se enferrujando. A locomotiva levada para Pôrto Novo, onde teria melhor abrigo e conservação. Segundo informações, boa parte da faixa de propriedade da RFFSA na região, atualmente já teria até dono, de forma irregular, é claro.
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Foto da matéria publicada na Revista Refesa, referente ao evento ocorrido em 1974, em comemoração aos 120 anos da Ferrovia no Brasil. Lamentavelmente pouco do que foi prometido na época, realmente se efetivou. Foto: Revista Refesa. Cortesia: Christoffer R. |
Bom, só nos resta ter esperança para que desta vez seja diferente, e torcer para que haja um maior reconhecimento por parte do Governo Federal, transformando este reconhecimento, efetivamente, em grandes investimentos e valorização da Ferrovia no Brasil.
A Ferrovia no mundo
É
importante citar, que há 200 anos, mais precisamente no ano de 1804 foi
construída por Richard Trevithick, o que podemos chamar de primeira locomotiva a
vapor do mundo. Ele construiu uma máquina a
vapor que andava sobre os trilhos de uma linha industrial em
Penydarrem, na Gália do Sul, Inglaterra.
Comercialmente o invento foi difundido por George Stephenson, que em 1814 construiu sua primeira locomotiva
para ser utilizada nas minas de Killingworth, denominada “Blücher”.
Em 1822 ele veio a fundar a primeira empresa do mundo para
construir locomotivas, sendo seu filho Robert, nomeado
diretor e dando nome a empresa; Robert Stepehenson & Co.
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Mais uma foto da região de Guia de Pacobaíba entre meados da década de 70 e início da década de 80. Podemos ver na foto alguns metros de trilhos, uma locomotiva como monumento, e a casa do agente, um sinaleiro antigo, uma caixa d'água e a Estação razoavelmente conservados até então. Com o tempo, a situação lamentavelmente só piorou. Foto publicada no Livro Lembranças do Trem de Ferro, de Pietro Maria Bardi. |
Há 180 anos, em 1824, rodava a primeira locomotiva a vapor das Américas, que
foi construída para demonstrar a viabilidade da tração a
vapor por Coronel John Stevens, para fazer circular em sua
propriedade situada em Hoboken, Nova Jersey.
A primeira ferrovia da América do Sul viria a ser inaugurada
no Peru, em 1851, em um trecho de 14 quilômetros entre Lima e
Calero.
Nosso vizinho Chile, também recebeu a ferrovia antes de nós.
A primeira ferrovia de lá teve sua construção iniciada em
1849 e inaugurada em 1852.
O Primeiro teste de uma Ferrovia no Brasil
Texto publicado no Jornal do Commercio, de 06 de Setembro 1853

06 de Setembro de 1853
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Foto da Baroneza, nas dependências das Oficinas do Engenho de Dentro. Foto: Coleção João Carlos Reis Pinto. Cortesia: Christoffer R. |
Hontem experimentou-se a corrida de uma locomotiva a vapor
pelas trilhas de ferro de uma porção concluída da estrada de
Mauá á raiz da serra da Estrella. O nosso corresponde da
Semana dirigio-nos á noite as seguintes linhas a semelhante
respeito:
Enquanto o mundo político se agitara esta manhã e a espada de Damocles, deixando de oscilar por um momento, cahia sobre o ministério, íamos eu e mais alguns curiosos, entre os quaes se notavão os ministros da Inglaterra e da Áustria, arriscando-nos a uma esperiencia no primeiro carro de vapor que trilhava o primeiro caminho de ferro do Brazil.
Atravessamos a Bahia em um barco também movido pelo agente
de Fulton, e dahi a duas horas (o barco era de pequena
carreira) chegamos a Mauá. Não estando ainda mais do que
principiada a ponte de desembarque, subimos guindados pelos
esteios e deslisámo-nos por uma sucessão de taboas delgadas
e pouco seguras até a praia, com o risco apenas de tomarmos
um banho de lodo.
Logo a alguns passos vimos uma singela e airosa locomotiva
com a certidão do anno de seu nascimento e do nome do seu
digno pai nas rodas do centro. As letras de metal amarello
portavam por fé o seguinte:
WM. FAIRBAIRN AND SONS
1852
Manchester
Ainda não havia o waggon em regra. Adaptou-se á locomotiva
um carro grosseiro de transporte de materiaes, e sem mais
demora deitámo-nos todos nesse waggon improvisado.
De repente um grito prolongado, estridente, um sibilo da
força de 50 sopranos, esturgio pelos ares e nos fez levar as
mãos aos ouvidos. Era o annuncio da partida, era o aviso a
quem se acha-se no caminho para acautelar-se de um bote
mortal, aviso dado por um tubo na própria locomotiva.
Mais veloz do que uma flecha, do que o vôo de uma andorinha,
o carro enfiou-se pelas trilhas, embalançou-se, correu,
voou, devorou o espaço, e atravessando campos, charnecas, e
mangues aterrados parou emfim arquejante no ponto em que o
caminho ainda não oferece segurança.
O espaço devorado foi de uma milha e três quartos. O tempo
que durou o trajecto foi de quatro minutos incompletos.
É justo que consignemos aqui os nomes dos Srs. Irinêo e
Braggs, o primeiro por se haver afoiado a emprehender
aquelle melhoramento, o segundo por estar executando com
zelo e perícia os trabalhos respectivos.
O Sr. Hadfield, que foi também a este passeio mostrara
achar-se possuído de grande jubilo. Um de seus sonhos desde
muito tempo era a applicação do vapor ás estradas e á
navegação deste Império. Achando-se entre nós por ter vindo
como representante da companhia em que emprehendeu a linha
de navegação de Liverpool, para cujo estabelecimento muito
cooperou, pode ver realisados os seus sonhos terra marique (1),
como dirião os nossos mestres de grammatica latina.
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Baroneza sobre um vagão prancha, quando foi exposta na gare da estação Central, depois chamada D. Pedro II. Ilustração retirada do Livro Memória Histórica da EFCB, de Manuel Fernandes Figueira. Coleção: Christoffer R. |
Fosse Jorge Stephenson ou Trevetick, como querem os Inglezes;
os irmãos Seguim, como asseveram os Francezes; ou Oliveira
Evans, como pretendem os Americanos; fosse quem fosse o
inventor das locomotivas, o que é verdade é que a humanidade
deu um passo agigantado depois dessa acquisição. O congresso
da paz devia commemorar em sessão annua um tão prodigioso
invento, que pôde, mais do que meia duzia de discursos
pomposos, estreitar os povos em um feixe, desenvolvendo o
commercio, o mahior elemento de paz e de grandeza.
Que futuro brilhante para o Brazil estamos tendo nas rodas
daquella locomotiva! Felizes os d’entre nós que tiverem uma
longa vida: esses passarão por grandes cidades, por grandes
estabelecimentos ruraes, recordando-se de que os sitios por
onde transitão forão paúes e matas! Oh! Se a existencia do
homem não fosse tão curta: Se ao menos pudessemos voltar a
este mundo, sombras invisiveis peregrinando pelo
territorio da patria, como nos achariamos mediocres, comparando o nosso passado de então, o nosso presente de
hoje, com o progresso da geração vindoura!
![]() |
Mas os homens são como os obreiros que se auxilião
reciprocamente quando levantão um edificio. Cada seculo
deposita a sua pedra para o complemento da grande obra. A
nossa pedra assentamo-la na planicie de Mauá: o edificio já
está começado. não desanimemos; e se a morte nos tomar em meio da
obra, ahí estão as novas gerações para continuá-las.
Paz no entanto e descanso eterno á pobre raça muar! Venha o
motor invisivel substitui-la no serviço, com as primazias e
vantagens com que uma bella manhã succede a uma noite escura
e feia. Venhão os melhoramentos materiaes do paiz, venhão
com elle a paz e a industria, e para principiarmos.... venha
quanto antes a estrada de Minas e S. Paulo.”
| (1) Terra marique é o termo em latim que significa "por terra e por mar" |
A inauguração da E.F. Mauá
Texto publicado no Jornal do Commercio, de 02 de Maio 1854

Terça-feira, 02 de Maio de 1854
MAUA - ESTRADA DE FERRO
Foi enfim inaugurada ante-hontem a primeira estrada de ferro
que no território brazileiro se constroe. A velocidade desse
invento poderoso da sciencia humana era até aqui objecto de
fé para o geral dos Brazileiros, hoje para um grande numero
delles é cousa real, já experimentada: a estrada de Mauá
está inaugurada, e o foi, como já disse o nosso collega da
Semana, com as solennidades de que era credora. A religião
benzeu esses vehiculos destinados a produzir uma verdadeira
revolução no regimen da nossa industria; a autoridade humana
consagrou-os, o enthusiasmo rompeu o réo do futuro, acclamou
o progresso incalculável da civilização brazileira.
Nos cocches que Vulcano subjugado pela sciencia humana ia
impellindo com rapidez que devorava o espaço, mil votos, mil
pezares assaltavam a mór parte dos viajantes; pezares sim,
como pois tão tarde, como só em 1854 tinha o imperio gigante
da América a sua primeira linha de ferro, e como essa linha
apenas cortava os paúes de Mauá em direcção á íngreme serra
de Petrópolis, como tanto tempo levamos e tão pouco temos
feito! Votos e esperanças, sim, pois era impossível á
imaginação mais lerda não só conceber que de grandeza, que
de prosperidade colheremos quando essas linhas de ferro se
estenderem pelo interior do paiz, indo ligar as diversas
partes desse bello torrão que a Providencia com tanta
generosidade enriqueceu. Para termos quanto antes estradas
de ferro, para recuperarmos o tempo perdido, cumpre que tudo
empenhemos, tudo; os mais pródigos sacrifícios no presente
serão mesquinhos comparados com a grandeza que com elles
obteremos. Estradas de ferro! Estradas de ferro!
Nada accrescentaremos sobre os pormenores dessa solenne
inauguração, nada desses coches tão commodos quão elegantes,
onde os passageiros podem multiplicar-se, sem todavia se
incommodarem, sem confusamente se apinharem, nada do
concurso de espectadores, nada da profusão do banquete, nada
dos brindes e acclamações, nada, pois tudo isso foi
descripto nesta folha e tudo isso desaparece diante desse
enthusiastico sentimento de que todos se acharão possuídos
ao ouvir enorme Vulcano afar sob o jugo do genio do homem,
sibilar obediente a suas ordens, e apresentar em seus
gigantescos bojos todo o imenso futuro que elle nos promette.
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Sua Majestade, a Baroneza. Foto: Preserve/RFFSA. |
Mais algumas transcrições interessantes sobre a Inauguração
Ao ato da inauguração compareceu Sua Majestade o Imperador
D. Pedro II, a quem o Comendador Irineu Evangelista de Souza
dirigiu as seguintes palavras, que são valiosas para a
documentação histórica da viação férrea brasileira:
“Senhor.
A diretoria da Companhia — Navegação a vapor e estrada de
ferro de Petrópolis — vem render graças a VV. MM. pela honra
que se dignaram conferir á estrada, vindo assistir a
solenidade de sua inauguração.
Vinte meses são apenas contados desde que VV.MM. honraram
com as suas augustas presenças o primeiro acampamento dos
operários da companhia; coube-me então a distinta honra de
depositar nas mãos de V.M. um humilde instrumento de
trabalho, do qual V.M. não se desdenhou de fazer uso, como
para mostrar aos seus súditos que o trabalho, essa fonte
perene da prosperidade pública, era não só digno da sua alta
proteção, porém mesmo de tão extraordinária honra!
Esse exemplo, Senhor, não foi perdido; ele fez vibrar em
nossos corações o entusiasmo, e o entusiasmo é esse
sentimento um tanto indefinível, porém que, uma vez
despertado em corações generosos, não ha mais sacrifício de
que não sejam capazes, mas ha mais obstáculos que não saibam
vencer!
Hoje dignam-se VV. MM. de vir ver correr a locomotiva veloz,
cujo sibilo agudo ecoará nas matas do Brasil — prosperidade
e civilização — e marcará sem dúvida uma nova era no país.
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Curiosa foto, que teria sido tirada na localidade de Fragoso(?). Foto: (?) |
Seja-me permitido, Imperial Senhor, exprimir nesta ocasião
solene um dos mais ardentes anelos do meu coração: esta
estrada de ferro que se abre hoje ao trânsito público é
apenas o primeiro passo na realização de um pensamento
grandioso. Esta estrada, Senhor, não deve parar, e si puder
contar com a proteção de V.M. seguramente não parará mais
senão quando tiver assentado a mais espaçosa de suas
estações na margem esquerda do Rio das Velhas.
Ali se aglomerará para ser transportado ao grande mercado da
Corte a enorme massa de produção com que devem concorrer
para a riqueza pública os terrenos banhados por essa imensa
artéria fluvial, o rio de S. Francisco e os seus inúmeros
tributários.
É então, Senhor, que a majestosa baía, cujas águas beijam
com respeito as praias da capital do Império, verá surgir em
seu vasto e abrigado ancoradouro navios sem conta. É então,
Senhor, que o Rio de Janeiro será um centro de comércio,
industria, riqueza, civilização e força, que nada tenha que
invejar a ponto algum do mundo!
Uma proteção eficaz aos primeiros passos deste meio de
locomoção admirável, que tem contribuído poderosamente para
a prosperidade e grandeza de outros povos, fará com que seja
uma realidade, e porventura em época não mui distante, esta
visão que me preocupa.
Dignai-vos, Imperial Senhor, de acolher os ardentes votos
que faz a diretoria da companhia que leva a efeito no Brasil
a primeira estrada de ferro, pela glória do reinado de Vossa
Majestade, pela ventura da augusta família imperial e pela
prosperidade da grande Nação, cujos destinos se acham
confiados a alta sabedoria e paternal solicitude de Vossa
Majestade.”
Do seguinte modo respondeu o Imperador:
“A Diretoria da estrada de ferro de Mauá pode estar certa de
que não é menor o meu júbilo ao tomar parte no começo de uma
empresa que tanto ha de animar o comércio, as artes e as
indústrias do Império.”
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Estação de Guia de Pacobaíba. Foto da Coleção de Alfredo Ferreira Rodrigues, de Pelotas-RS. |
Francisco Otaviano, deu na “Semana”, folhetim do “Jornal do Comércio”, minuciosa descrição da festa que houve por ocasião de se inaugurar esta estrada. Não desistimos ao desejo de transcrever aqui alguns trechos dessa bela e graciosa pagina:
“Eis que o sibilo do vapor dá o sinal da primeira corrida. SS. MM. e toda a sua corte, as autoridades superiores da província do Rio de Janeiro, o presidente do Conselho, os ministros do Império, da Marinha, da Guerra, as senhoras dos convidados e muitas outras pessoas mais notáveis, embarcaram ao som de uma banda marcial e de repetidos aplausos. A locomotiva arranca-se do ponto da estação, arrasta o comboio, corre, voa, atravessa as nove milhas e um quarto da estrada concluída e chega dentro de 23 minutos ao Fragoso, ponto de parada.
Tinha saído à 1 hora e 27 minutos e chegado a 1 hora e 50
minutos.
No Fragoso apearam-se todos os passageiros e se dirigiram
após SS. MM. à casa do Sr. Tenente-coronel Albino,
presidente da câmara municipal da vila da Estrela, a cuja
circunscrição pertence a freguesia da Guia, onde se acha
situada a localidade denominada Mauá.
As duas horas e 27 minutos estavam novamente embarcados os
passageiros e com 20 minutos de viagem desembarcaram no
primeiro ponto de onde haviam partido.
Não se pode descrever o entusiasmo com que todos a porfia
saudaram o monarca americano e sua augusta esposa, quando
estes se apearam do coche particular que se construíra e
adereçara pomposamente no centro do comboio. Os vivas, os
mais cordiais, os aplausos os mais frenéticos e espontâneos
demonstraram o alto apreço que nos merece uma dinastia que
sabe associar-se a todas as idéias nobres, grandes,
generosas, de progresso e de proteção ilustrada à indústria.
Esses aplausos redobraram quando o Sr. Ministro do Império
levou à presença do Imperador o Sr. Irineu, para que este
agradecesse a prova de alta distinção que aquele augusto
Senhor lhe acabava de conferir condecorando-o com o título
de Barão de Mauá.
O que se lia nos olhos de todos os que ali estavam era fácil
de se rastrear. Como é que só agora em 1854 tínhamos o
primeiro caminho de ferro, e esse mesmo limitado a um ensaio
em tão pequena escala? Como há quem aconselhe a preferência
á viação atual tirando argumento para isso das grandes
despesas das estradas de ferro, quando a experiência tem
demonstrado que essas grandes despesas trazem como consetórios,
terminadas as linhas, o dobro de gêneros para o transporte,
o desenvolvimento da lavoura e de todas as indústrias, a
fertilidade de charnecas e maninhos abandonados até então, o
estabelecimento de novos antros de população laboriosa e
tantas outras vantagens para o estudo que duplica em força,
em grandeza e em riqueza!"
O “Jornal do Comércio” de 9 de
Maio de 1898 publicou o
seguinte:
“Ainda era um sonho a grande via férrea, que mais tarde
tomou o nome de D. Pedro II e hoje chama-se Central, e já o
espírito previdente de Mauá rompia o véu do futuro e
avistava a grandeza do porto do Rio de Janeiro, centro das
valiosas exportações e importações, que circulariam por essa
larga artéria!
A linha inaugurada estendia-se então de Mauá até Fragoso por
14,5 km e em 16 de Dezembro de 1856 chegava a Raiz da Serra
com 15,19 km.
Sua Majestade a Baroneza
Texto publicado na Revista Refesa, década de 70
A “Baroneza”, única locomotiva a vapor tombada pelo Instituto do Patrimônio Historio e Artístico Nacional, do Ministério da Educação e Cultura, e a primeira a circular oficialmente no Brasil, em 30 de Abril de 1854, quando foi inaugurada a Estrada de Ferro Petrópolis, fundada por Irineu Evangelista de Souza, Barão e depois Visconde de Mauá, patrono do Ministério dos Transportes. É até hoje, conservada no atual Museu Ferroviário de Engenho de Dentro, Rio de Janeiro, local onde se localizavam as antigas Oficinas da Central do Brasil. Máquina de personalidade que manteve através do tempo a nobreza a ela atribuída pelo próprio nome, dado em homenagem ao pioneirismo de Irineu Evangelista de Souza.
Depois de servir, por muitos anos, ao Imperador D. Pedro II, a “Baroneza” foi retirada do serviço em 1884, por Decreto do Gabinete Imperial. Mais tarde voltou a trafegar, puxando um carro construído especialmente para receber o Rei Alberto, da Bélgica, em visita ao Brasil. Foi no ato de inauguração da nossa primeira ferrovia que o Imperador Dom Pedro II batizou de "Baroneza" a locomotiva, em homenagem à esposa do Barão de Mauá, Dona Maria Joaquina Machado de Souza, a Baroneza de Mauá.
![]() Aqui temos a foto do Museu de Engenho de Dentro, onde vemos a Baroneza e as réplicas de dois carros de passageiros da E.F. Mauá que foram construídas nas Oficinas do Engenho de Dentro, formando assim uma composição de época. Na década de 90, foi criada uma réplica da Baroneza para ser utilizada no filme sobre o Barão de Mauá. Foto: Preserve/RFFSA. |
A "Baroneza", por seu importante papel como pioneira no campo ferroviário, transformou-se em pedaço da história do ferroviarismo mundial. Foi construída em 1852 por William FairBairn & Sons, em Manchester, Inglaterra. No ano seguinte, Irineu Evangelista de Souza (1813 - 1889) comprou-a, colocando-a em tráfego oficial no dia 30 de Abril de 1854, na E.F. Petrópolis, que Dom Pedro chamou de E.F. Mauá. Ela chegou a ser chamada pelos cronistas da época de "Vulcano que vimos arfar sob o jugo do homem".
Ironia do Destino
A “Baroneza” foi por muito tempo inteiramente
conservada nas Oficinas de Engenho de Dentro da outrora E.F. D. Pedro II, depois E.F. Central do
Brasil, pela 6.ª Divisão Operacional da Rede Ferroviária
Federal, por fim sendo preservada no Centro de Preservação
da História Ferroviária do Rio de Janeiro, o "Museu do Trem"
do Rio de Janeiro, inaugurado em 25 de Fevereiro de 1984,
sendo construído em terreno das Oficinas do Engenho de
Dentro.
Originalmente pertenceu à Cia. de Navegação a Vapor e E.F.
Petrópolis, que pretendia chegar até as margens do rio das
Velhas, organizada e custeada por Mauá. Passou, em seguida,
à Cia. Estrada de Ferro Príncipe do Grão-Pará, de vida
efêmera e mera tentativa para salvar a primeira ferrovia
brasileira, sufocada pela E.F. D. Pedro II, dada em
concessão a Augusto da Rocha Fragoso, pelo próprio
Imperador, em momento dos mais contra-indicados. Testemunha
silenciosa de toda uma estóica, muito bem descrita por Mauá
na sua autobiografia (“...os resultados que colhi da
realização da primeira estrada de ferro do Brasil não foram
lá muito para cobiçar”... - perdera mais de 600 contos
naquela época - a “Baroneza”, afinal passou à propriedade da
The Leopoldina Railway, que absorveu o Grão-Pará e,
posteriormente, à E.F. Leopoldina, em que aquela se
transformou, com o surgimento da Rede Ferroviária Federal,
em 1957. Desativada, por circunstâncias diversas e por
ironia do destino, acabou passando à guarda e posse da
Central do Brasil, recolhida que foi, quando do seu
tombamento, à área das Oficinas do Engenho de Dentro.
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Baroneza recolhida nas dependências das Oficinas de Engenho de Dentro, antes da criação do Museu. Podemos ver alguns outros materiais históricos ao lado dela. Foto publicada no Livro Lembranças do Trem de Ferro, de Pietro Maria Bardi. |
Considerada como relíquia nacional, em 18 de Fevereiro de
1884 o então Ministro das Obras públicas, Conselheiro Afonso
Pena, que mais tarde chegou a Presidente da República,
dirigiu a Diretoria da Estrada de Ferro D. Pedro II o
seguinte Aviso:
“Haja V. M. de providenciar para que nessa Estrada de Ferro,
seja recebida e depositada nas Oficinas de Engenho de
Dentro, a fim de ali conservada, a 1.ª locomotiva que serviu
na E. F. de Mauá, que foi também a primeira inaugurada no
Império, a qual locomotiva acaba de ser oferecida ao Governo
Imperial pela Cia. Estrada de Ferro Príncipe do Grão Pará.
Deus guarde a V. M. (a) Afonso A. M. Pena”.
É um dos modelos mais antigos de locomotiva que se conhece, tendo sido incorporada ao Patrimônio Nacional, por Decreto, a 30 de Abril de 1954, quando se completou o centenário de existência da E.F. Mauá.
Ficha Técnica
A “Baroneza”, locomotiva a vapor, construída em 1852 por
William FairBairn & Sons - Manchester-Inglaterra, tem 7
metros e meio de comprimento, 2 metros e meio de largura e 3
metros e 40 centímetros de altura. Seu peso aderente é de
17.000 quilos; quando em marcha é reduzido para 14.000
quilos. Com tender, em marcha, aumenta seu peso para 20.000
quilos. Possui duas rodas guia medindo 1 metro e 29
centímetros e uma roda motriz de 1 metro e 50 centímetros.
Seus cilindros possuem 0,279mm de diâmetro e seu curso é de
381mm. Sua superfície de aquecimento é constituída de tubos
de 3 polegadas. Do engate ao trilho mede 0,990mm. A roda
motriz fica entre as rodas guias e uma distância de 1 metro
e 830 milímetros, de centro a centro; a distância do centro
de uma roda guia para outra é de 3 metros e 660 milímetros.
Possui, ainda, duas chaminés, a maior com 1 metro e 310
milímetros de altura, um farol e dois estribos. Além da
antiguidade e do contraste entre os seus cobres polidos e os
cromados modernos das automotrizes, a “Baroneza” desperta
interesse pela riqueza dos acabamentos que se completam nos
ornamentos artísticos dos carros que puxava. É interessante
citar que entre 1883 e 1884, ela teve sua bitola reduzida de
1,68m para 1,60m, ficando assim no mesmo padrão de bitola da
E.F. D. Pedro II. Em algumas oportunidades a Baroneza foi
posta em funcionamento e rodou em suas vias, fazendo viagem
inclusive para São Paulo.
![]() Baroneza em Guaratinguetá por volta da década de 50, em uma das oportunidades em que fez viagens especiais. Foto pertencente ao Acervo do Museu Frei Galvão, Guaratinguetá-SP. Cortesia: Marco Giffoni, Caçapava-SP. |
Teria sido a primeira locomotiva a operar em solo nacional?
Segundo a pesquisa do Sr. Luiz Octavio, publicada no
Informativo AFPF (Associação Fluminense de Preservação
Ferroviária), é citada uma outra locomotiva da EF Mauá: a
"Manchester". Teria esta sido a primeira locomotiva a operar
em solo nacional? Muito provavelmente.
Com os dados lá apresentados, tudo leva a crer, que a primeira
locomotiva a operar em solo nacional, teria sido a
"Manchester", sendo utilizada durante o período da
construção da ferrovia. Muito provavelmente teria sido ela,
a locomotiva que fez o teste inicial em 1853, quando a
ferrovia ainda estava em construção.

30 de Abril de 1904
ESTRADA DE FERRO
Na primeira página, em extensíssimo artigo, o jornal informava: “Celebra-se, hoje, o jubileu da inauguração da primeira estrada de ferro do Brasil, a de Mauá à Raiz da Serra da Estrela, em comunicação com Petrópolis. Cinqüenta anos estão decorridos daquela data auspiciosa em suas promessas (...) e do exemplo que podia ser mais aproveitado do que foi o ilustre brasileiro Irineu Evangelista de Souza, depois Barão e Visconde de Mauá, deu com abnegação patriótica que foi o relevo de seu nobre caráter...”
Biografia de Irineu Evangelista de Souza (1813 – 1889)

Se eu transcrevesse aqui uma Biografia de Mauá, acabaria caindo no comum. Ao invés disso, creio que seja mais cabível indicar Sites e Textos mais interessantes e competentes já existentes na Internet. Informo que a visita a estes, é indispensável para melhor conhecer sobre Mauá. Tomo a liberdade apenas de falar sobre o falecimento de Mauá.
Mauá morrera a 21 de Outubro de 1889, menos de um mês antes da queda do Império para cujo desenvolvimento, no terreno dos transportes, tanto havia trabalhado e sofrido. Seus despojos mortais foram levados de Petrópolis para o Rio de Janeiro e assim, "na sua última viagem, o corpo do Visconde de Mauá atravessa, frio e inerte, a estrada de ferro à qual, nos ardentes dias de entusiasmo industrial, ele dera a vida".
Saiba mais sobre Mauá em:
http://www.desenvolvimentomunicipal.com.br/memorial_maua/biografia.htm - Além da Biografia, contém diversas outras informações sobre Mauá - Visita Obrigatória
http://geocities.yahoo.com.br/Kajafreitas/Nobm01.htm - Site A Nobreza Brasileira de A a Z, de Sérgio de Freitas
http://www.multirio.rj.gov.br/historia/modulo02/irineu.html#f6050_amp.html - Interessante Site da MULTIRIO, com mais informações
http://www.transportes.gov.br/Maua.htm - Site do Ministério dos Transportes
http://www.geocities.com/Baja/Cliffs/5086/diversos/bio_maua.htm - Site Trem de Doido
http://www.cmp.rj.gov.br/petro1/baraodemaua.htm - Mais um pouco sobre Mauá
http://www.historianet.com.br/main/mostraconteudos.asp?conteudo=165
- Mauá e o início da Modernização no Brasil
FONTES
BIBLIOGRÁFICAS
SIQUEIRA, Edmundo. Resumo Histórico de The Leopoldina Railway Co. Ltd. (Transcrição)
Jornal do Commércio, 06 de Setembro de 1853 (Transcrição)
Jornal do Commércio, 02 de
Maio de 1854 (Transcrição)
Sua Majestade a Baroneza - Revista Refesa, década de 70 (Transcrição)
AGRADECIMENTOS
A todos que colaboraram direta e indiretamente com este trabalho, seja com fotos, dados, e até mesmo com a nobre visita ao Site. Agradecimento especial ao amigo Sérgio Augusto de Oliveira, de Maringá-PR, que me subsidiou com os dois textos mais antigos transcritos aqui, originalmente publicados no Jornal do Commércio.
COMPLEMENTOS
Para saber mais, você não pode deixar de visitar os seguintes Links:
O Sesquicentenário da Ferrovia no Brasil I - Manifesto
O Sesquicentenário da Ferrovia no Brasil III - Breve História da Estrada de Ferro Mauá
O Sesquicentenário da Ferrovia no Brasil IV - Viagens entre o Rio e Petrópolis
Este Artigo é composto de
textos diversos, publicados originalmente no Jornal do
Commércio, Revista Refesa e no Livro Resumo Histórico de The
Leopoldina Railway Co. Ltd. Os textos foram organizados, ilustrados e tiveram informações adicionadas por Christoffer
R.
Para saber um pouco mais da
história das ferrovias da nossa região, não deixe de visitar
a Seção Histórico em nosso
Site, e conhecer as outras Colunas desta Seção.![]()
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