Apresentação:

 

"Eu não construo Estrada para o Brasil de hoje, mas para o Brasil do futuro. Não podemos dividir os trens. É preciso que os trens que correm na baixada galguem a Serra para correr no planalto; senão não haverá desenvolvimento econômico possível para as províncias de Minas e de São Paulo"

C.B. Ottoni

 

    Com esta frase profética, apresentamos o segundo Artigo do mês de Março, em Comemoração aos 146 anos da Estrada de Ferro Central do Brasil, completados neste 29 de Março de 2004. Nada melhor do que homenagear este grande Vulto Ferroviário, Christiano Benedicto Ottoni, considerado o "Pai das Estradas de Ferro do Brasil", responsável por uma das maiores e mais importantes Ferrovias que este País já teve. Esta frase também nos chama atenção para um dos maiores feitos de Ottoni: Ter lutado por uma linha que ganhasse a Serra do Mar em simples aderência. Em homenagem a este grande homem, disponibilizamos um Artigo duplo, contendo duas Biografias do mesmo. Espero que apreciem.

 

Christoffer R.

Webmaster - ANPF
 


 

Março de 2004 - N.º 18

Textos sobre Christiano Benedicto Ottoni

 

 

 Christiano Benedicto Ottoni

O Pai das Estradas de Ferro do Brasil

1811 - 1906

 

2003-2004 - 150 Anos da Ferrovia no Brasil

2003-2004 - 150 Anos da Ferrovia no Brasil

 

 

Christiano Benedicto Ottoni, o "Pai das Estradas de Ferro do Brasil", foi Diretor da Estrada de Ferro D. Pedro II de 1855 à 13 de Dezembro de 1865, quando pediu e obteve sua exoneração. Quatro dias depois, veio a ser inaugurado o "Túnel Grande" com a presença da Princesa Isabel e do Conde D'Eu, seu marido. Esta obra custou na época cerca de 3 mil Contos de Réis, sendo a obra de arte mais importante da Ferrovia. Infelizmente Ottoni, o principal responsável por este grande feito, não inaugurou esta grande obra.  Eduardo Gonçalves David cita em seu Livro, A Ferrovia e Sua História - Estrada de Ferro Central do Brasil: "Christiano Ottoni, neste episódio inaugura um estigma cruel que irá perseguir vários dirigentes da Ferrovia. Nem sempre aquele que se esforça para impor uma idéia consegue assistir, no poder, sua implementação. Quem lhe sucede no cargo e que irá cortar a fita inaugural e administrar os primeiros dias do empreendimento - quase sempre criticando a obra que acabou de receber. Só mais tarde, com passar do tempo, ânimos resfriados, é o verdadeiro autor reconhecido." Ilustração retirada do Livro Memória Histórica da EFCB, de Manuel Fernandes Figueira. Coleção: Christoffer R.

 

    Christiano Benedicto Ottoni deixou com a glória de seu nome o exemplo de uma existência utilíssima consagrada ao serviço do país. Poucos homens gozaram como ele a rara fortuna de deixar seu nome ligado a um dos maiores acontecimentos do progresso da sua Pátria. Dentre todos os melhoramentos materiais do Brasil, foi a Estrada de Ferro Central o que ganhou maior fama, pela grandeza de sua concepção, pela riqueza das zonas que fez prosperar e, principalmente, pela prioridade que representa nas obras desse gênero entre nós. Vice-Presidente e Presidente da Companhia que executou os primeiros trabalhos e Diretor, após a encampação pelo Governo, Christiano Ottoni dirigiu desde o seu início os serviços dessa artéria principal da nossa Viação Pública, vindo deixar a pesada tarefa, quando já vencidas as mais assustadoras dificuldades.


    Tantos foram os esforços que ele despendeu, tanta a dedicação que consagrou a essa obra admirável, tão notável a tenacidade com que venceu os maiores obstáculos, tão grandes a competência ganha nesses trabalhos que os seus conselhos, até que seus lábios se cerrassem, foram sempre ouvidos como a palavra de um mestre insubstituível, a propósito de todas as questões relacionadas com aquele próprio nacional. Ele era tão cioso dessa glória e tinha tão nítida a consciência dessa posição singular, que no parlamento ou na imprensa discutiu sempre com a sua incontestada proficiência todos os pontos de dúvida levantados sobre o objeto principal de suas cogitações.

Mural na Gare da Estação Central do Brasil, antiga D. Pedro II, Rio de Janeiro. Podemos ver o retrato de Ottoni acima, ao fundo a Estação D. Pedro II, à esquerda, uma gravura Baroneza, e a direita, uma gravura da locomotiva elétrica "Escandalosa" da Central do Brasil, recebida em fins da década de 40. Foto: Ricardo Koracsony, Carapicuíba-SP.



    Mas a atividade de Benedicto Ottoni não se consagrou somente a essa obra gigantesca. Nascido em Minos Gerais, na Vila do Príncipe, depois Cidade do Serro, a 30 de Maio de 1811, assentou praça com seu irmão Theophilo Ottoni, no Corpo de Marinha, que só deixou para exercer em Ouro Preto o lugar de Professor Público de geometria. Em 1834 foi nomeado lente substituto da Academia de Marinha, seguindo ao mesmo tempo os estudos de Engenharia na Escola Militar e, em 1844, foi promovido a Catedrático do 1.º ano. Sua vida de magistério, que terminou em 1845, foi das mais úteis ao ensino, para cuja propagação concorreu publicando os “Elementos de Aritmética, Álgebra, Geometria e Trigonometria” tão conhecidos de todos os que receberam entre nós a instrução secundária.

    A capacidade de homem de ciência, Ottoni reuniu qualidade de político e escritor.

    Deputado à Assembléia Legislativa Provincial do Rio de Janeiro, na primeira legislatura em 1835, foi depois eleito Deputado Geral, em 1848, pela Província de Minas Gerais, voltando a sê-lo em 1861 e 1864. Filiado desde o começo de sua vida pública ao Partido Liberal, defendeu sempre os princípios de sua escola política até que em 1870 assinou o manifesto republicano de 3 de Dezembro. Com a ascensão do Partido Liberal ao poder, a 5 de Janeiro de 1878, mereceu de seus antigos correligionários a prova de confiança de ser eleito e escolhido Senador pela Província do Espírito Santo em 1879.

    A Republica veio encontrá-lo nesse elevado posto, onde se emprenhou nos mais notáveis debates ligados a especialidade de seus estudos.

    Quando em 1892, pela renuncia do Sr. Cezario Alvin, Minas Gerais teve de escolher novo representante no Senado Federal, seu nome surgiu entre os seus patrícios para merecer a consagração das urnas.

    Ainda na sessão do ano anterior à sua morte tomou parte em discussões importantes, acompanhando os trabalhos parlamentares com assiduidade e máxima atenção.

    Educando na Escola do dever, observador das velhas prazes, hoje tão descuradas, apesar de seus longos anos, não descuidava as obrigações impostas pelo seu mandato. Sua morte parece ligar-se ao escrúpulo com que cumpria a risca os seus deveres. No último sábado, antes de morrer, apesar do mau tempo e das observações de sua veneranda esposa, foi ao Senado “para que não deixasse haver eleição da Mesa por sua causa”. Ao voltar molhou-se em caminho e mostrou-se indisposto; conservou-se na cama, apesar de mostrar sempre o animo alevantado; à noite, porém, queixava-se de perturbações de digestão e enfraquecia visivelmente, expirando às dez e meia da noite no quarto do hotel Vitória em que se achava hospedado.

    Com o Senador Ottoni desapareceu um dos raros servidores do país, que acompanharam toda a vida do segundo reinado.

(Memória Histórica da EFCB)

 

Moeda comemorativa da inauguração da Estrada de Ferro D. Pedro II, fato ocorrido em 29 de Março de 1858. Ilustração retirada do Livro Memória Histórica da EFCB, de Manuel Fernandes Figueira. Coleção: Christoffer R.

 

 


 

Vultos Ferroviários: Christiano Benedicto Ottoni

 

    Christiano Benedito Ottoni é, incontestavelmente o Pai das Estradas de Ferro do Brasil, pois, além de pioneiro, se patenteia como o percursor e orientador profético do futuro das estradas de ferro no Brasil.

 

Maquete da Estátua de Christiano Benedicto Ottoni. Ilustração retirada do Livro Memória Histórica da EFCB, de Manuel Fernandes Figueira. Coleção: Christoffer R. Uma das diversas homenagens que Ottoni recebeu, foi virar nome de Estação Ferroviária da Central do Brasil. A Estação que ostenta seu nome, foi inaugurada em 1883, quando ainda vivo, fica em Minas Gerais, no Município de Carandaí, em um trecho atualmente desativado da Linha do Centro, por conta da construção da Variante do Carandaí. O endereço da Administração da Central do Brasil, ficava à Praça Christiano Ottoni, Estação Central do Brasil (D. Pedro II).

    Traçou ele um plano da viação férrea do Brasil com uma clarividência incrível, em 1859, quando procedia aos estudos para o traçado da linha da Serra, época em que a engenharia nacional estava na infância. Nesse plano, aconselha com minúcias a atuação futura, encarada sob todos os seus aspectos: nacional, social, político, econômico, técnico e até financeiro. Mostrou o caminho a seguir, prevendo e receando os erros futuros e procurando evitá-los.

 

PIONEIRO

 

    O aspecto da personalidade profissional de Ottoni, no qual triunfou, foi o de pioneiro, quando concebeu e construiu uma obra técnica admirável e perfeita, apesar da precariedade dos meios de que dispunha e da oposição, da desconfiança e do menosprezo dos seus contemporâneos. Quando em 1855, foi organizada a Companhia Estrada de Ferro D. Pedro II, da qual foi o único Presidente, só existiam no Brasil duas pequenas estradas de ferro: a de Mauá à Raiz da Serra de Petrópolis, na extensão de 18 quilômetros, e a de Recife à Estação de Água Preta, com 27 quilômetros, ambas em construção. Posteriormente, iniciaram-se mais duas: uma na Bahia e a de Santos a Jundiaí, em São Paulo. A invenção da locomotiva datava de apenas 40 anos, sendo que a técnica naquele tempo, não avançava com a velocidade de hoje. Em 29 de Março de 1858, inaugurava-se o primeiro trecho da Estrada de Ferro D. Pedro II, atual Central do Brasil, até Queimados com 48 km.

 

    Em seu discurso ao Imperador, nessa solenidade, clamava Ottoni sobre a "necessidade palpitante de ser desde logo metodizado o nosso sistema de vias de comunicações. Seja estudada e traçada nos mapas a rede dos caminhos de ferro do Brasil, ligando os principais centros e adaptada para estender-se ao Paraguai e à Guiana Francesa. Subordinem-se todos os projetos ao plano geral. Para que as forças sociais não se fatiguem, sem que do seu dispêndio colha a sociedade a máxima vantagem. Para que o princípio civilizado circule sem interrupção por todo o corpo político, como o sangue pelas nossas artérias."

 

A VIDA

 

    Cognominado o "Pai das Estradas de Ferro do Brasil", Christiano Benedicto Ottoni nasceu na então Província das Minas Gerais no ano de 1811. Durante o Império fez parte do Conselho de Ministros. Foi o fundador e o primeiro Diretor da E.F. D. Pedro II, Deputado Federal e Senador da República. Faleceu em 1906, aos 95 anos de idade. Descende Christiano Ottoni de um imigrante, Manoel Antão Ottoni, que em 1731 veio para o Brasil, fixando-se em Minas Gerais. Tanto Christiano como Teófilo Benedicto são filhos de Jorge Ottoni, descendente direto do imigrante luso Manoel Antão.

 

    Autor de uma monografia importante pelo seu caráter pioneirístico ("O Futuro das Estradas de Ferro no Brasil"), mandada imprimir pela Diretoria da Estrada de Ferro de D. Pedro II (hoje Estrada de Ferro Central do Brasil), em 1859, Christiano Ottoni forma, ao lado do Barão de Mauá, entre os maiores nomes da fase heróica da implantação e da penetração das ferrovias pela vastidão do território brasileiro. Ainda hoje é figura de destaque na Engenharia Ferroviária Nacional, pelas lições e pelo exemplo de racionalidade científica que deu, num momento em que urgia a abertura dos túneis na Serra do Mar, como a fórmula mais viável de se interiorizarem os trilhos da importante estrada até o Vale do Paraíba, rumo à capital da Província de São Paulo.

 

Inauguração da Estrada de Ferro D. Pedro II, em 29 de Março de 1858, com a presença do Imperador D. Pedro II e toda a Côrte. Após a cerimônia, todos foram convidados para um "esplêndido copo d'água", oferecido pelo Imperador, como relatou um cronista da época. Foto do Acervo RFFSA-Preserfe. Publicada no Livro A Ferrovia e Sua História - Estrada de Ferro Central do Brasil, de Eduardo Gonçalves David.

 

    Sobre esse episódio vale a pena transcrever um trecho do prefácio, de autoria de um descendente direto do grande ferroviarista, Pio Benedicto Ottoni, à reedição da obra do grande ex-Presidente da E.F. D. Pedro II, "O Futuro das Estradas de Ferro no Brasil", editada no Rio de Janeiro, em 1859, pela Tipografia Nacional:

 

    Tratava-se, de fato, de uma obra de precursor. Só existiam no Brasil as duas estradinhas de ferro a que aludi "a de Mauá a Raiz da Serra de Petrópolis, na extensão de 18 quilômetros, e a de Recife à Estação de Água Preta, com 27 km ambas em construção. Mauá estava construindo a Serra de Petrópolis com cremalheira, de bitola estreita, com rampas empinadas e curvas de anzol. Nada mais havia no Brasil. Na Europa, as estradas de ferro da Suíça e algumas da França, galgando montanhas, quase todas eram de cremalheira. Ottoni, ao invés, compreendeu que era preciso romper com o preconceito. E clamava: "Eu não construo Estrada para o Brasil de hoje, mas para o Brasil do futuro. Não podemos dividir os trens. É preciso que os trens que correm na baixada galguem a Serra para correr no planalto; senão não haverá desenvolvimento econômico possível para as províncias de Minas e de São Paulo". Sentiu, antes de todos e contra todos, que impunha o desenvolvimento da linha, mantendo a rampa máxima de 1,8% e curvas nunca inferiores a duzentos e cinqüenta metros de raio, transpondo em túneis os obstáculos que a cordilheira apresentasse.

 

Moeda Comemorativa do Jubileu da Estrada de Ferro Central do Brasil, gravada pelo Professor Augusto Girardet e cunhada na Casa da Moeda. Em uma face temos a Estátua de Ottoni, e na outra, o Túnel Grande. Foto: (?)

 

(Vultos Ferroviários, Revista Refesa - Edição Especial RFFSA 10 Anos)

 

 

 

FONTES BIBLIOGRÁFICAS
 

DAVID, Eduardo Gonçalves David. A Ferrovia e Sua História: Estrada de Ferro Central do Brasil. Coleção Aenfer, Rio de Janeiro, 1998.

FIGUEIRA, Manuel Fernandes. Memória Histórica da Estrada de Ferro Central do Brasil. Imprensa Nacional, 1908. (Transcrição)

Revista Ferroviária, 1942.

Revista Refesa - Edição Especial RFFSA 10 anos. 1968. (Transcrição)

 

 

Estes Artigos foram publicados inicialmente, a Primeira Parte no Livro Memória Histórica da EFCB, de Manuel Fernandes Figueira, e a Segunda Parte na Revista Refesa - Edição Especial Comemorativa aos 10 anos da RFFSA. Foram recuperados, organizados, ilustrados e tiveram informações adicionadas por Christoffer R.

 

 

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