Revisado em 03/05/2008

Apresentação:

 

    Na primeira coluna deste mês, apresentaremos uma transcrição do trecho da obra Viagem ao Brasil, escrito pelo naturalista norte-americano Luiz Agassiz (1807-1873) e por sua esposa Elizabeth Cary Agassiz (1822-1907), que relata um passeio feito pelos autores e pelos demais membros da sua comitiva na Estrada de Ferro Dom Pedro II em 1865, ou seja, nos primeiros anos de funcionamento desta Ferrovia que, futuramente se tornaria a grandiosa Estrada de Ferro Central do Brasil. O Autor mostra fatos curiosos e pitorescos como por exemplo, aspectos do cotidiano do povo brasileiro na época, a construção do Túnel 12 na Serra do Mar e, ressalta ainda, a importância que terá a melhoria dos meios de transporte para as futuras pesquisas científicas pelo interior do país.

 

Marco Giffoni

Pesquisador Ferroviário

 


 

Fevereiro de 2004 - N.º 15

Texto de Luiz e Elizabeth Agassiz

 

 

Passeio pela Estrada de Ferro Dom Pedro II

 

 

2003-2004 - 150 Anos da Ferrovia no Brasil

2003-2004 - 150 Anos da Ferrovia no Brasil


27 de Abril de 1865

    Fomos acolhidos como hóspedes do Major Elisson, Engenheiro-chefe da Estrada de Ferro Dom Pedro II. Ele vai nos levar até o extremo dessa Linha, a uma centena de milhas do Rio, em plena Serra do Mar.

Primitiva Estação da Côrte, inaugurada em 1858. Foto: (?)

    Talvez em todas as nossas excursões através do Brasil não encontremos um dia tão cheio de impressões como este. Veremos, sem dúvida, uma paisagem mais selvagem; mas, da primeira vez que se contempla a natureza sob um aspecto inteiramente novo, experimenta-se uma sensação de encanto que só dificilmente se repetirá; a primeira vez que se descobrem as altas montanhas, que se contempla o oceano, que se vê a vegetação dos trópicos em toda a sua pujança, marca época na vida. Essas florestas maravilhosas da América do Sul são tão densas e tão emaranhadas de parasitas gigantescas que formam uma sólida e compacta massa de verdura. Não é cortina de folhagem, transparente ao sol e vibrando sob a brisa, que representa a floresta da zona temperada. Algumas árvores das zonas que hoje atravessamos pareciam estar cingidas por imensas serpentes, tão grossos eram os caules das parasitas que se enroscavam em torno delas; orquídeas de toda a espécie, de grandes dimensões, prendem-se a troncos e galhos, e plantas soltas sobem até seu cimo para recaírem em guirlandas onduladas até o solo. Sobre os próprios taludes entre os quais passa a Estrada, desenvolve-se ou entrelaça-se uma vegetação caprichosa que se diria atirar um véu de verdura sobre a brecha feia e nua rasgada pela via. Longe de prejudicar essa paisagem encantadora, a via-férrea, não hesito em dizê-lo, valorizou-a ao contrário, descobrindo, com os cortes que abriu, magníficas perspectivas no coração da Serra. O vagão que ocupávamos, colocado na frente da locomotiva, defrontava a Estrada, e nada perturbava a vista, nem fumaça, nem cinzas. Ao sair de um túnel onde a escuridão parecia tangível, vimos desenrolar-se diante de nós um quadro deslumbrante, todo resplendente de luz. Uma exclamação saída de todas as bocas testemunhou nossa surpresa e admiração.

Túnel Grande (Túnel N.º 12), com 2.233,60m. Enquanto este Túnel não ficava pronto, era utilizada uma Linha Provisória, com 5.800 metros para dar continuidade ao tráfego entre Rodeio (atual Paulo de Frontin) e Barra do Piraí. Ele foi inaugurado em 17 de Dezembro de 1865, com a presença da Princesa Isabel e do Conde D'Eu, seu marido. Esta obra custou na época cerca de 3 mil Contos de Réis (quase um terço do custo da Companhia São Paulo e Rio de Janeiro!), sendo a obra de arte mais importante da Ferrovia. Ilustração retirada do Livro Memória Histórica da EFCB, de Manuel Fernandes Figueira. Coleção: Christoffer R.

 

Acima, foto do que seria a Linha Provisória. Segundo Eduardo Coelho, esta foto pertence ao Acervo da Biblioteca Nacional. Abaixo, podemos ver uma ilustração muito semelhante à foto acima, provavelmente baseada na mesma, publicada inicialmente na Revista Engineering, Londres. No Brasil, ela foi reproduzida primeiramente no Livro "A História da Engenharia no Brasil", de Pedro Telles, sendo a foto enviada ao autor do Livro por cortesia do Dr. Paul E. Waters. O desenho abaixo retrata o que seria a Locomotiva especialmente encomendada à fábrica Baldwin com oito rodas motrizes, capaz de rebocar oito carros de passageiros e seis vagões de carfa, a 10 km/h através de curvas com raio mínimo de 70m e rampa máxima de 6%, vencendo os 140m de diferença de cota do trecho da Linha Provisória. Não confundir com a Locomotiva da foto acima, pois não é a mesma. Reforçamos que esta abaixo, trata-se apenas de uma ilustração da Locomotiva

    Para o fim do percurso, penetramos na zona das mais ricas plantações de café. E para estes cafezais que se mantém o tráfego nessa linha, que transporta enormes quantidades do precioso grão, recebidas no percurso ou vindas de mais longe. Próximo à última Estação, há uma grande exploração rural ou fazenda que produz, segundo nos disseram, cinco a seis mil quintais de café nos bons anos. Essas fazendas são edifícios de aspecto singular, baixos (comumente de um só andar) e muito compridos; as maiores cobrem espaço considerável. Como se acham inteiramente isoladas e longe das outras habitações, os que moram nelas têm de fazer provisão de tudo o que é preciso para as suas necessidades. Isto conserva, nos proprietários, costumes inteiramente primitivos. O major Ellison contou-me que um dia, não há muito tempo, uma opulenta marquesa que morava um pouco longe no interior, dirigindo-se à cidade para demora de algumas semanas, parou em casa dele para descansar da viagem. Vinha acompanhada por uma tropa de trinta e uma bestas de cargas, conduzindo toda a bagagem imaginável, sem contar as provisões de toda a espécie, galinhas, presuntos, etc., e vinte e cinco criados a acompanhavam. A hospitalidade dos brasileiros, segundo se afirma, não conhece limites; basta alguém se apresentar à porta no fim de uma jornada de viagem e, desde que o forasteiro não tenha cara muito má, pode estar certo de receber acolhida cordial, jantar e cama. A recomendação de um amigo, uma carta de apresentação, abrem todas as portas da casa, e pode-se demorar o tempo que quiser.

    Fizemos as três últimas milhas do percurso no que chamam “estrada provisória”, que deve ser abandonada logo que o grande túnel fique concluído. Confesse-se que, para um viajante inexperiente essa Estrada deve parecer excessivamente perigosa, sobretudo na parte que está apoiada, com um declive de 4 por cento, numa ponte de madeira de 20 metros de altura, descrevendo curva muito fechada. Quando vimos a máquina subir esse plano inclinado e, debruçando-nos um pouco, percebemos o horror do precipício e depois, quase à nossa frente, o último carro do trem que dobrava a curva, foi difícil resistir ao sentimento do perigo. Se algo pode dar a compreender a confiança que merece a Administração dessa Estrada de Ferro, é o fato de que nenhum acidente foi registrado nessas circunstâncias, em que menor precaução esquecida causaria uma catástrofe inevitável. (1)

    Faz-se-á uma idéia do trabalho que necessitou a construção dessa Via Férrea quando se souber que só para perfurar o Grande Túnel (e há quatorze), um conjunto de trezentos trabalhadores, divididos em duas turmas que se revezavam, trabalhou noite e dia, exceto aos domingos, durante sete anos. O barulho das pás e picaretas quase não foi interrompido durante esse longo lapso de tempo, e a rocha através da qual foi perfurada a galeria é tão dura que muitas vezes os golpes mais rudes dos perfuradores só produziam um pouco de pó, de volume muito reduzido. (2)

    Na volta, paramos meia hora na Estação situada à margem do Rio Paraíba. Essa primeira visita a um dos rios importantes do Brasil não se passou sem um incidente memorável. Um dos nossos amigos que irá deixar a expedição e seguirá viagem até São Francisco (EUA), declarou que estava resolvido a não se separar da expedição sem ter feito alguma coisa por ela. Com a sua bengala, um fio de barbante e um alfinete dobrado em dois, improvisou um anzol e, num instante, apanhou dois peixes, nossa primeira pesca nas águas doces do Brasil. Singular coincidência! Um dos peixes era inteiramente novo para Agassiz e só conhecia o outro por descrições.
 

 

(1) Algumas semanas mais tarde, tive ocasião de perguntar a uma encantadora jovem, recentemente casada, se havia visitado a estrada provisória para desfrutar a pitoresca paisagem: “Não, - respondeu-me com um tom bem sério – sou moça e feliz, ainda não desejo morrer.” Eis um comentário divertido da idéia que os brasileiros faziam do perigo de tal viagem.

(2) Essa Estrada, começo de uma grande via cujo objeto é o Rio São Francisco, abre ricas perspectivas para os estudos científicos. Doravante a dificuldade de transportar as coleções do interior para o litoral se acha diminuída. Em lugar de alguns pequenos espécimes de vegetação tropical atualmente conservados em nossos museus, cada escola que se inaugure para o ensino da geologia e da paleontologia possuirá em breve, espero, grossos troncos e partes vegetais que permitirão observar a estrutura das palmeiras, dos fetos arborescentes e plantas análogas, representantes atuais das florestas primitivas. Chegou a ocasião de nossos manuais de botânica e zoologia perderem o seu caráter local e limitado, para apresentarem vastos e grandes quadros da natureza em todas as suas fases. Só então será possível fazer comparações exatas e significativas entre as condições da terra, nas épocas primitivas e o seu aspecto atual, em zonas e climas diferentes. Até agora, o princípio fundamental em que os autores se inspiram para determinar a identidade das formações geológicas, nos diversos períodos, repousa sobre a hipótese de que cada período teve o mesmo caráter, em toda parte. Entretanto os progressos de geologia tornam cada dia mais evidente e imperiosa a prova de que as diferentes latitudes continentes tiveram, em todas as épocas, suas plantas especiais e seus animais próprios; a variedade era sem dúvida menor do que em nossos dias, mas bastante para excluir toda idéia de uniformidade. O aperfeiçoamento das vias de comunicação no Brasil promete, pois, enriquecer nossas coleções; nutro mesmo a esperança de que as viagens científicas nos trópicos deixem de ser acontecimentos acidentais marcando época na história do progresso. Elas ficarão ao alcance de todos os que estudam a natureza, e tão fáceis como as excursões nas regiões da zona temperada.


 

Acima, temos uma Litografia do Aterro Grande, no trecho da Estrada de Ferro D. Pedro II, em 1865. Obra de Carlos Linde, pertencente ao acervo da Fundação Raimundo Ottoni de Castro Maia, Rio. Abaixo, temos uma outra Litografia de Carlos Linde, pertencente ao Acervo da Biblioteca Nacional, Rio, retratando a Ponte do Paraíso, sobre o Rio Paraíba do Sul, em 1865. Sobre ela, passa um Trem puxado por uma das novas Locomotivas Baldwin da Estrada de Ferro D. Pedro II. As duas ilustrações são Cortesia de Marco Giffoni, Caçapava-SP.


Alguns dados sobre o livro e os autores

    O século XIX foi o laboratório em que se processaram as transformações fundamentais da pátria brasileira. A lista extensa de cientistas, naturalistas de vários matizes, como Spix e Von Martius, botânicos como Saint Hilaire, zoólogos como Agassiz, mineralogistas como Eschwege, arqueólogos como Lund, geólogos como Frederic Hartt, geógrafos como Récluas, e tantos outros aqui estiveram para estudar o solo, a flora e fauna, da maneira mais lúcida e interessada, devassando o interior brasileiro como o único fito de nos revelar a nós mesmos e ao mundo e retratar o tesouro deste país encantado. Uma plêiade de homens do mais do mais alto nível intelectual e moral aqui veio ou aqui permaneceu por largo tempo, vivendo em absoluta empatia como o meio, e o resultado foram obras, foram livros dos mais interessantes pela contribuição científica que trouxeram ao patrimônio comum da humanidade.

    Luiz Agassiz chefiou a expedição científica norte-americana que visitou o nosso país no período 1865-1866. Dessa expedição, composta de cerca de 15 pessoas, participou também Elizabeth Cary Agassiz, que registrou dia-a-dia o ocorrido com todos. Os elementos para a confecção de seu registro eram fornecidos diariamente pelo grande naturalista. Esse diário, com muito pequenas modificações, é que foi publicado, mais tarde, por Luiz e Elizabeth Agassiz.

    Agassiz e os demais membros da comitiva dedicaram muita atenção às coisas da natureza brasileira, principalmente às ligadas à Geologia, Paleontologia e Ictiologia.

    O livro do casal Agassiz é riquíssimo em informações sobre os mais variados temas, como é o caso desta descrição sobre o passeio pela Estrada de Ferro Dom Pedro II, que nos revela curiosidades e fatos envolvendo esta Ferrovia em seus primeiros anos de funcionamento.

 

FONTES BIBLIOGRÁFICAS
 

AGASSIZ, Luiz, AGASSIZ, Elizabeth Cary. Viagem ao Brasil (Voyage au Brésil). Editora da Universidade de São Paulo. São Paulo, 1975. Traduzido por João Etienne Filho. (Transcrição)

DAVID, A Ferrovia e Sua História - Estrada de Ferro Central do Brasil. AENFER, Rio de Janeiro, 1998.

 

 

 

Este artigo é obra de Luiz e Elizabeth Agassiz e foi publicado inicialmente no livro "Voyage au Brésil". Foi recuperado, organizado, ilustrado e teve informações adicionadas por Marco Giffoni, licenciado em História pela Universidade de Taubaté (UNITAU), membro da ANPF e pesquisador da História Ferroviária da nossa região.

 

 

 

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