Atualizado em: 25/02/2004
Apresentação:
O primeiro Artigo de Novembro trata de uma viagem entre o Rio de Janeiro e São Paulo, feita por ferrovia exatamente há 120 Anos atrás. O Autor do relato é Carl von Koseritz, um imigrante alemão, residente no Rio Grande do Sul e que por um curto espaço de tempo chegou a morar no Rio de Janeiro. Em meados da década de 1850 veio a se tornar jornalista, tendo lançado o seu grande jornal em 1864: "Koseritz Deutsche Zeitung", onde em 1883 ele publica o relato de sua viagem. Em 1885, este texto, juntamente com outros veio a ser publicado em livro na Alemanha, com o título de "Bilder aus Brasilien", que foi mais tarde traduzido e publicado no Brasil com o título de "Imagens do Brasil".
Considero este texto um dos mais fantásticos relatos relacionados com a Companhia São Paulo e Rio de Janeiro recuperados por mim. Digo isto devido ele ser um dos raros, senão o único texto que relata várias impressões que o passageiro tinha ao viajar entre o Rio e São Paulo no século XIX, como paisagens, estações, inconvenientes. Enfim, é um texto muito rico em detalhes. Outro destaque é que quando Carl von Koseritz fez esta viagem, ainda era responsável pelo trecho entre Cachoeira e São Paulo a Companhia São Paulo e Rio de Janeiro, com o trecho tendo sido inaugurado em 1877, ou seja, a apenas 6 anos antes deste relato. A Companhia São Paulo & Rio de Janeiro foi encampada pela Estrada de Ferro Central do Brasil em 1891. Como curiosidade, Carl von Koseritz, também fez um fantástico relato de uma viagem entre o Rio e Petrópolis de Trem em 1883, ou seja, pouco tempo depois do trecho da Serra da Estrela até Petrópolis ter sido inaugurado naquela Ferrovia. É com grande felicidade que compartilho este texto com vocês.
Christoffer R.
Webmaster - ANPF
Novembro de 2003 - N.º 09
Texto de Carl von Koseritz
Uma viagem de Trem entre o Rio e São Paulo há 120 anos atrás...

2003-2004 - 150 Anos da Ferrovia no Brasil
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O relato do autor é dado na cidade de São Paulo, em 06 de Novembro de 1883. Esta viagem foi realizada um dia antes, 05 de Novembro e provavelmente o Autor escreveu os relatos desta em seu diário, um dia após a viagem. Em seu relato podemos notar alguns pequenos erros relacionados com a geografia da região, mas nada que comprometa este belíssimo texto. Uma curiosidade, é que o prefixo do trem tomado pelo Autor era S1 (Expresso). A partir de Barra do Piraí, o prefixo passou a ser SP1 (Expresso do Ramal de São Paulo). A partir da atual Cachoeira Paulista, quando se fazia a troca de composição, o prefixo passou a ser P2 (Expresso SP & RJ). |
São Paulo, 06 de Novembro de 1883
Estamos na poética cidade de São Paulo...
Ontem de
manhã pelas 4 horas a nossa caravana deixou Santa Teresa
para tomar o Trem Expresso de São Paulo, que parte às 5 da
Estação Central, no Campo de Sant’Anna. Pela última vez
descemos, no escuro, a romântica ladeira de Monte Alegre e
vimos em baixo o casario brilhando entre os inumeráveis
bicos de gás.

Às 4 e meia chegamos à Estação, onde o nosso hospedeiro, que nos acompanhara, se ocupou da bagagem, enquanto eu comprava os bilhetes. A passagem para São Paulo custa 37$300 por pessoa, (74,60 marcos), em 1.ª Classe, e por 10 quilos de bagagem se paga 2$300, (4,60 marcos) de frete. Somente a bagagem que se leva no Carro não paga. Com tão enormes preços é natural que se seja econômico na bagagem de forma que só levamos conosco duas malas, e enviamos todo o resto da bagagem pelo navio “Rio de Janeiro”, que devemos tomar em Santos.
Quando chegamos ainda brilhavam os bicos de gás, mas em breve despontava a aurora e toda a grande Estação se encheu de vida. Os jornais eram oferecidos a preços maiores, vendedores de bilhetes nos perseguiram até a partida do Trem, e também os engraxates, ansiosos por ganharem mais um tostão. No interior do Edifício não era menor a animação. Centenas de passageiros ocupavam as plataformas, enquanto se pagava e colocava etiquetas na secção de bagagens. Tinha-se uma impressão européia. A Estação é muito grande e o público viajante, com as suas mantas de viagem pardas, com seus véus brancos sobre os chapéus, suas valises de mão e suas bolsas de viagem, eram exatamente como entre nós. A ordem é modelar. Nas plataformas, cobertas de vidro, não entra ninguém além dos passageiros, dos empregados e dos carregadores numerados, que são severamente fiscalizados.
Nosso hospedeiro nos reservou lugares amplos e cômodos em um Carro de 1.ª Classe, e ali foram colocadas as nossas bagagens de mão, assim como um cesto com o almoço, pois este é um cuidado que os passageiros não devem esquecer. Não há restaurantes arranjados pela Estrada de Ferro Pedro II, e quem não levar o que comer arrisca-se a ficar com fome ou a comer muito mal por preço caríssimo, no caminho. Logo nos assentamos comodamente nos nossos lugares (os Carros são no sistema americano, com um largo corredor no meio), tendo à nossa disposição uma pequena mesa de parede, que se pode baixar, quando necessário. Como a linha é de bitola larga os Carros são grandes e a gente pode se mover facilmente dentro deles.
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Na ilustração à esquerda podemos ver a Igreja de Sant´Anna, localizada no Campo de Sant'Anna. Ela foi demolida para a construção da Estação do Campo, conhecida também como Estação da Côrte, da E.F. D. Pedro II. Podemos ver a ilustração da Estação à direita. Esta é a Estação onde Carl von Koseritz embarca para São Paulo em 1883. Na foto abaixo, podemos ver as Plataformas da Estação com uma Composição estacionada composta de Carros de Passageiros de Primeira e Segunda Classes. Ilustrações retiradas do Livro Memória Histórica da EFCB, de Manuel Fernandes Figueira. Coleção: Christoffer R. |
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Finalmente às 5 horas soou o silvo estridente da Locomotiva, nosso hospedeiro se despediu amavelmente e o enorme Trem se pôs em marcha. Quando, acelerando a marcha, deixávamos a Estação, os raios matinais do sol douravam as torres do Rio. É verdade que ainda estávamos na cidade; cruzávamos justamente a rua São Cristóvão pela qual ainda no Sábado, dia 03, eu tinha ido ao Palácio Imperial, e justamente ali passava a Quinta. Na beira da estrada vê-se uma elegante construção em estilo suíço: é a Estação Privativa do Imperador. Mais longe brilham, na luz rubra do sol, as janelas do Palácio de São Cristóvão, em cujo cimo a Bandeira Imperial exatamente se levanta. Prosseguimos sempre mais rapidamente. Passamos 5 ou 6 pequenas Estações de Subúrbio; diante de lindas “vilas”, maravilhosos jardins e encantadores chalés voa o Trem cada vez mais depressa, cortando os subúrbios da grande cidade que se estende por muitas milhas.
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Aqui podemos ver algumas das Estações de Subúrbio citadas por Carl em seu relato. Na ordem, São Francisco Xavier, Cascadura e Sapopemba (Atual Deodoro). É interessante citar que D. Pedro II tinha uma Estação particular em sua propriedade, que acabou sendo demolida por conta da Eletrificação das linhas suburbanas cariocas. Ilustrações retiradas do Livro Memória Histórica da EFCB, de Manuel Fernandes Figueira. Coleção: Christoffer R. |
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Uma deliciosa frescura matinal permitia-nos gozar a viagem e assim a despedida do Rio nos foi quase insensível. O comboio seguia sempre; aqui e ali graciosas palmeiras reais inclinavam docemente as folhas à brisa da manhã, e uma urânia exibia as suas folhas ao sol. Mas pouco a pouco foram rareando as “vilas”, os jardins etc., e breve nos encontramos em outra região. O Rio com seus pequenos parques ficava para trás e a província nos acolhia. Pequenos bosques ladeiam a estrada, o terreno é levemente ondulado, e vê-se aqui e ali uma casa isolada de fazenda. Já encontramos gado que pasta e cavalos nos potreiros.
Em Belém a primeira parada de 3 minutos. O sol está completamente de fora e inunda a região com a sua luz dourada; diante de nós se mostram as silhuetas escuras das altas montanhas com as suas formas fantásticas recortadas no céu da manhã, e tendo nos picos mantas de névoa. Aqueles picos devemos nós atravessar. A impressão é a mesma de Raiz da Serra, quando se pensa que se tem de galgar aqueles rochedos da Serra dos Órgãos. A única diferença é que para Petrópolis se vai por cima dos morros e aqui por debaixo dele. Aproximamo-nos rapidamente da Serra. Já se atravessa muitos cortes no meio das pedras; granito por todos os lados: uma região romântica e selvagem, mas completamente solitária, pois não se vê gado nem casas.
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A Belíssima Estação de Belém, atual Japeri. Esta Estação existe ainda nos dias atuais, porém, este prédio provavelmente não existia ainda quando Carl passou por lá, e sim um prédio mais antigo e modesto. Ilustração retirada do Livro Memória Histórica da EFCB, de Manuel Fernandes Figueira. Coleção: Christoffer R. |
Em ascensão regular chegamos agora ao nível médio da Serra: em baixo, no vale, se acham umas quarenta casas de uma Colônia Italiana, pintadas de branco, que oferecem uma linda vista. Apenas tínhamos passado por elas que o resfolegar mais forte da Locomotiva e a escuridão anunciavam o primeiro túnel. Mais um instante e estávamos sepultados na treva, mas somente por um minuto. Logo clareou, o barulho ficou mais fraco e tivemos diante de nós, na luz brilhante, mais uma colônia italiana de maior extensão. E assim prosseguimos, numa permanente mutação de cenários, de túnel a túnel. Agora a luz da manhã ilumina os vales encantadores e os verdes morros plantados de café e se espelha nos regatos que descem das montanhas, dos quais alguns são bastante grandes. Os túneis que atravessamos na serra são ao todo 17; no maior leva o Trem 6 minutos e nos outros 2, 3 e 4 minutos. Quando se sai do 4.º túnel tem-se ao lado um vale lindo, atravessado por uma torrente de montanha, e, bem junto à linha, trabalha numa pedreira toda uma colônia de operários, que ali levantaram as suas moradas provisórias. Nos vales ainda se vê numerosas casas de colonos italianos.
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Vistas diversas da E. F. D. Pedro II. Na sequência: Estação do Rodeio (Atual Paulo de Frontin) e Viaduto sobre o Ribeirão dos Macacos; Estação do Rodeio vista do cume da montanha à direita; Entrada superior do Túnel N.º 4; Ponte sobre o Rio Sant'Anna na 2.ª Secção. Ilustrações do Livro Brasil - Estrada de Ferro D. Pedro II, que foram publicadas no Livro Lembranças do Trem de Ferro, de Pietro Maria Bardi. |
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Às 6 e três quartos tínhamos passado o 7.º túnel e coberto 80 quilômetros. Especialmente bela é a paisagem do 14.º túnel até a Estação de Mendes, na qual não se para. Vê-se aqui numerosas palmeiras e em baixo pequena estrada lateral. Os trilhos correm ao lado de uma torrente de montanha, com freqüentes corredeiras e românticas pedras. É o Piraí, que se lança bem adiante no Paraíba. Logo depois do 15.º túnel a linha corre ao lado de um enorme morro de café, cuja plantação deve dar uma imensa renda. Atrás do 16.º túnel está a pequena Estação de Sant’Anna, na qual também não se para. Mais um último túnel e se abre diante de nós a admirável paisagem da Barra do Piraí, onde este se lança no Paraíba. O grande Vale do Paraíba nos recebe; ali está a Barra do Piraí, na boca do pequeno rio e é uma paisagem como mais bela não se pode imaginar. Mas o homem não vive só de poesia, e devemos cuidar do nosso almoço, enquanto o trem roda sempre à beira do majestoso Paraíba.
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Na primeira foto, vemos o chamado Túnel Grande (Túnel N.º 12), com 2.233,60m. Ilustração retirada do Livro Memória Histórica da EFCB, de Manuel Fernandes Figueira. Coleção: Christoffer R. Na foto à direita, podemos ver a Estação de Mendes. Foto: Coleção de Jovino Ribeiro Almeida. Cortesia: Jorge Alves Ferreira Jr. |
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Sim, é belo este Vale do Paraíba com as suas montanhas cobertas de cafezais, com os seus rios lindos e o seu fundo cercado por montanhas escuras... Na manhã de ontem o sol de primavera o banhava com seus raios e se espelhava ainda nas gotas de orvalho que estavam sobre as folhas. A manhã estava linda, mas um almoço sem água potável e sem café não é coisa muito agradável e foi com muito prazer que descemos 10 minutos depois na Estação de Pinheiros e tomamos uma bebida escura que - no país do café - parecia feita de milho e estava morna. Mas antes isto do que nada.
Adiante, de uma outra Estação (Volta Redonda), passou o Trem até que chegamos a Barra-Mansa, uma linda cidadezinha, com uma grande Estação e bonitas casas. Bem junto à Estação se via um magnífico jardim de gosto francês, em cujo fundo se achava um verdadeiro palácio. Aqui moram pessoas ricas do Rio, desejosas de fugir à febre, mas neste ano pouco ganharam, pois a febre, por exceção, avançou até Barra Mansa. São 9 horas e um quarto e nós cobrimos 154 quilômetros em 4 horas e meia. Depois de uma parada de 3 minutos pôs-se o trem em marcha para continuar a desenrolar aos nossos olhos as paisagens movimentadas do Vale do Paraíba.
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A bela Estação de Barra Mansa. Ilustração retirada do Livro Memória Histórica da EFCB, de Manuel Fernandes Figueira. Coleção: Christoffer R. |
Em Pombal, pequena aldeia, parou o trem 2 minutos; a região oferecia sempre lindas perspectivas, e é a mais rica e mais bela zona da província do Rio, esta em que nos encontramos. Chegamos agora à Estação de Divisa, onde igualmente se para 2 minutos e onde há uma Colônia Italiana fundada no antigo Porto-Real, domínio da Coroa, pela Associação Agrícola e Colonizadora, cujo Presidente é o meu caro amigo Dr. Januário de Oliveira, um dos melhores brasileiros que conheci até hoje. Depois de alguns minutos nos achamos sobre a grande ponte do Rio Paraíba e passamos à província de Minas, que não nos abriga por muito tempo, pois breve a deixamos por uma segunda ponte. Passamos em seguida pela Estação de Surubi e às 10 horas da manhã paramos na Estação da Cidade de Resende, no quilômetro 191. É uma bonita Cidade, com muita gente curiosa na plataforma.
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Na primeira foto acima, temos a antiga Estação de Surubi, que também se chamou Oliveira Botelho. Bem próximo a ela, havia a chamada Ponte do Surubi, que atravessava o Rio Paraíba do Sul para chegar até a Estação de Agulhas Negras (Resende), que podemos ver na foto à direita. Surubi: Ilustração retirada do Livro Memória Histórica da EFCB, de Manuel Fernandes Figueira. Coleção: Christoffer R.; Resende: Foto da Coleção do Sr. Claudionor Rosa, Resende-RJ. |
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Uma depois da outra, sempre no Vale do Paraíba, passamos pelas pequenas Estações de Itatiaia e Boa Vista, onde há uma curta parada. Todas estas Estações tem os seus armazéns repletos de sacas de café, e ao longo da linha os morros de café se sucedem. A linha cruza em Cachoeira o rio pela terceira vez, fazendo neste ponto a divisa das províncias de Minas e do Rio de Janeiro, perdão, queria dizer São Paulo, pois já passamos as fronteiras do Rio e nos encontramos nas terras dos famosos vicentistas, que um dia quase fizeram Rei ao seu Amador Bueno.
Em Queluz, em Minas, servida pela Estrada de Ferro Rio Verde, passamos o rio numa grande ponte de madeira, que apesar disto muito sólida. Queluz tem uma grande e bela Igreja, mas não é muito florescente, apesar de ser o ponto de junção de dois sistemas ferroviários. Em meia hora (já são 11 da manhã e percorremos 240 quilômetros), passamos pela pequena Estação de Lavrinhas e continuamos sempre para frente. À direita temos de novo o magnífico panorama da Serra, cujos picos negros se levantam abruptos e se perdem nas nuvens, pois estas cobrem ainda os picos dos montes, enquanto no vale o sol se espelha no Rio Paraíba e tudo em torno a nós é verde e florido. Agora chegamos à Estação de Cruzeiro, que tem armazéns muito grandes. Da localidade propriamente nada se vê. Ainda 14 quilômetros e atravessamos numa ponte o Paraíba pela última vez. Depois disto chegamos a Cachoeira, a grande Estação onde se para durante 20 minutos, e onde os passageiros para São Paulo saltam e baldeiam para o Trem da Estrada de Ferro do Norte de São Paulo. Viajamos 7 horas e percorremos 266 quilômetros, ou seja, uma média de 40 quilômetros por hora, se levar em conta as diferentes paradas nas Estações.
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Nos dois parágrafos acima, podemos ver alguns erros geográficos cometidos por Carl von Koseritz. O rio que faz a divisa entre os Estados do Rio de Janeiro e São Paulo, na verdade é o Ribeirão do Salto, e não o Paraíba do Sul. Ele volta a errar quando afirma que Queluz faz parte de Minas Gerais, mas na verdade fica em São Paulo e também não é a junção de dois sistemas ferroviários. A junção fica na verdade em Cruzeiro, de onde partia a Estrada de Ferro Rio Verde (Minas and Rio). Estas confusões são normais, principalmente pelo fato do Autor não conhecer muito bem a região, e estar fazendo este relato um dia após a viagem. |
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Na foto acima, podemos ver a grandiosa Estação de Cachoeira. Na plataforma há uma locomotiva estacionada e logo à direita dela, um pequeno galpão onde há um vagão de carga estacionado. Provavelmente este galpão pertencia anteriormente à Companhia São Paulo & Rio de Janeiro. Na imagem colorida abaixo, podemos ter a noção de como era o movimento em Cachoeira. O sentido do trem é oposto ao da foto acima. Na imagem da ponte abaixo, podemos ver a Ponte de Cachoeira, inaugurada em 1877 juntamente com o trecho entre São Paulo e Rio de Janeiro da Companhia São Paulo & Rio de Janeiro. Ilustrações em preto e branco retiradas do Livro Memória Histórica da EFCB, de Manuel Fernandes Figueira. Coleção: Christoffer R.; Ilustração colorida retirada da Internet. |
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Cachoeira é uma boa Cidade, já com visível caráter Paulista. Sobre a colina há um Hotel no qual os passageiros que não trouxeram provisões almoçam habitualmente, mas como devem tomar lugares e se ocupar das bagagens é freqüente deixarem o almoço em meio. Nós tínhamos almoçado cedo e, por isto, pude transportar com calma todo o meu povinho e as cestas, sacos, bolsas de viagem, malas de mão, etc., assim como arrumar tudo no Carro da Estrada do Norte e ainda providenciar o seguimento das grandes malas, o que é sempre necessário, pois a ordem ali reinante não é das melhores. Aliás, é chocante a diferença entre a brutalidade dos empregados da Estrada do Norte. Não se ganha com a mudança porque os Carros são bem elegantes, mas estreitos e incômodos. A bitola é estreita e por isto os carros também o são e falta-lhes comodidade. Os gabinetes de toilette são apertados, não há mesas e os lugares são demasiado estreitos para serem cômodos. Arranjamos com grande dificuldade a nossa bagagem miúda e o Carro se encheu de tal forma que nós estávamos como sardinhas em lata. A Cidade fica à beira do Paraíba e causa boa impressão.
Finalmente a máquina apita, o Trem põe-se em movimento e nós iniciamos a segunda parte de nossa viagem, a qual não é somente mais incômoda como também mais tediosa, apesar dos numerosos lugares a cuja vista se passa, - mais tediosa porque a gente abandona o Paraíba e percorre uma região de campos, levemente ondulada e tendo espaçadamente alguns capões de mato, tal e qual no nosso Rio-Grande. Alem disto o sol de meio-dia é impiedoso e a gente sua a valer no estreito carro superlotado. A poeira de São Paulo não é mais agradável que a de Minas ou do Rio, mas parece mais abundante. Poeira e suor são duas coisas que se entendem bem, mas cuja reunião não é muito agradável para aquele que a experimenta. O fato é que todos nós começamos a apresentar um aspecto mais ou menos ruim, pois espessas camadas de pó desciam sobre nós. Isto é uma condição altamente desagradável para as viagens de trem de ferro no Brasil, e também em outros lugares; mas como se pode vencer cerca de 500 quilômetros em um dia suporta-se tal inconveniente.
Era cerca de 1 hora quando o trem chegou à primeira Estação da Estrada do Norte, Lorena. Lorena é uma cidade bonita e regularmente grande, possuindo uma bela Igreja. A parada foi curta e um quarto de hora depois estávamos em Guaratinguetá, localidade grande e bonita, com duas belas Igrejas, elegantes casas e bem cuidados jardins. Depois de Barra-Mansa é a mais bonita localidade nesse percurso de 294 quilômetros. Passados poucos minutos se chega ao povoado de Aparecida, onde também se para. Ali se acha, como monumento mais importante a grande e velha Igreja, com um Convento também velho, o qual não sei se ainda está habitado ou se já passou a propriedade do Estado.
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Aqui podemos ver a Estação de Guaratinguetá, e à direita, Pindamonhangaba, ambas com seus prédios antigos. Carl von Koseritz nos chama a atenção para um interessante aspecto da linha: A poeira que incomodava os passageiros. A poeira no trecho da Companhia São Paulo & Rio de Janeiro era um grave problema devido ao leito da Estrada não ser macadamizado, ou seja, não haviam pedras entre a linha e o solo. A foto de Guaratinguetá pertence ao Acervo do Museu Frei Galvão. Cortesia: Marco Giffoni. A foto de Pindamonhangaba foi retirada do Site http://www.pindasp.cjb.net |
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Estamos aqui em plena região dos campos e em certos pontos de vista até as minhas filhas acharam semelhança com o trajeto cortado pela Estrada de Ferro Leopoldense. Se não fosse o café, cuja linha escura barrava o horizonte das colinas distantes, poder-se-ia realmente crer que se estava no Rio Grande. Passada a pequena Estação de Roseira chegamos à 1 hora e três quartos a Pindamonhangaba, onde eu desceria com prazer pois tinha prometido ao Barão Homem de Melo (nosso antigo Presidente) visitar a sua fazenda, que fica a meia hora da cidade. Ele a quer colonizar, pois o café não dá mais e há falta de trabalhadores. Mas nós tínhamos pressa, e por isto não pude cumprir a promessa, o que me fez pena. A cidade de Pindamonhangaba, que é bem importante, fica longe da Estação, mas causa uma impressão agradável e possui uma grande Igreja.
Às 2 e meia chegamos a Taubaté, depois de percorrermos 343 quilômetros. Taubaté é também uma cidade relativamente importante, mas dela pouco vi, pois a Estação, muito grande, barrava a vista. Às 2 e 40 chegamos a Caçapava, um velho lugar com casas estragadas e sem jardins. A única coisa notável que ali vi foi uma quantidade de urubus, que, como em Antonina, pousavam sobre os restos dos quais pareciam ao longe um ornamento negro. A pequena Estação de São José, que atingimos pelas 3 e um quarto, não oferece nada de notável, e prosseguimos pelos campos até que às 3 e 40 chegamos à estação de Jacareí, uma grande e bonita Cidade, a qual paradoxalmente tem uma Estação muito pequena, embora muito animada. Também aqui eu desejaria ficar, a fim de visitar meu amigo Luiz Pereira Barreto, um dos maiores pensadores do Brasil; mas tínhamos decidido chegar a São Paulo na mesma tarde e assim continuamos.
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À esquerda, temos a Estação de Caçapava, em foto da coleção de Juvenal Relojoeiro, Caçapava-SP. Cortesia: Marco Giffoni. Na outra foto, temos a Estação de Jacareí, que segundo Carl von Koseritz, era pequena, porém muito animada. Foto da Coleção de Rosário Blois. Carl logo acima, compara o trecho da Companhia São Paulo & Rio de Janeiro, com a Estrada de Ferro Leopoldense, já que antes de ter ido para o Rio, ele morava no Rio Grande do Sul, e nesta ocasião, estava retornando. Outra informação interessante, é a citação sobre o Barão Homem de Melo, que foi Presidente da Província do Rio Grande do Sul. Como curiosidade, o Barão Homem de Melo, se tornou Barão devido à inauguração da Companhia São Paulo & Rio de Janeiro entre São Paulo e Cachoeira Paulista, sendo agraciado na data com o título de Barão já que ele era Presidente desta Companhia. |
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Já nos aproximávamos do Tietê e a zona ficava de novo montanhosa. Logo passamos um túnel e chegamos diante do Tietê, o qual atravessamos em uma boa ponte de ferro. Pelas 4 horas e 12 minutos passamos na Estação de Guararema, que não tem nada de interessante. O lugar é pequeno e há pouca vida na Estação. Às 4 e 48 chegamos ao último ponto de parada antes de São Paulo, Mogi das Cruzes, tendo completado cerca de 450 quilômetros. É uma localidade grande e bonita, encantadoramente situada e possuindo três grandes Igrejas. O sol se inclina, já, bastante para oeste, os seus raios são menos fortes e uma brisa fresca faz o percurso agradável, apesar da enorme poeira. Aqui poder-se-ia crer que se estava no Rio Grande. Trepadeiras de rosas, que eu não via desde Santa Catarina se estendiam ao longo da Estrada, o campo se desenrolava a perder de vista, não se via mais morros de café, apenas aqui e ali capões com as árvores dos nossos bosques.
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Carl von Koseritz cometeu mais um erro logo acima. Ele cita, que estava se aproximando do Tietê, mas na verdade, ainda estava um pouco distante do mesmo. Logo depois de atravessar o chamado Túnel das Piluleiras, na realidade, o Trem atravessa o Paraíba do Sul pela última vez, passando logo após, na Estação de Guararema. Aí sim, depois de vencer a zona montanhosa, é que finalmente ele viria a atravessar o Tietê e chegando na Estação de Mogi das Cruzes. Foto publicada em Livro de Isaac Grinberg. Cortesia: Christoffer R. |
Da região tropical que deixamos pela manhã nada mais resta, nem mesmo o clima, pois agora está bem fresco. Passamos sem parar nas duas Estações de Lageado e Penha. O sol já tomba por detrás das colinas e o horizonte se ilumina com o crepúsculo. São 6 horas e o Trem apita: chegamos a São Paulo. Logo entra o Trem na grande Estação do Norte, onde reina a mesma ordem modelar do Rio. Fiz desembarcar minhas bagagens de mão e entreguei-as, com o boletim de registro das outras, a um carregador numerado, que deve levar tudo para o “Grand Hotel”, onde eu reservara aposentos desde a véspera por telegrama. Finalmente estávamos livres da viagem e ia já procurar um carro quando, no vestíbulo, ouvi falar alemão.
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Aqui temos o belo prédio da Estação do Norte naquela época. Até 1900 era considerada a Estação mais bela da Capital Paulista. Ilustração retirada do Livro Memória Histórica da EFCB, de Manuel Fernandes Figueira. Coleção: Christoffer R. |
Parte da Colônia Alemã de São Paulo, na data de chegada de Carl von Koseritz, foi esperá-lo na Estação, dando-os votos de boas vindas e apertos de mão. Eles vieram em bondes especiais para conduzi-lo ao Hotel, seguindo pela rua do Braz e a ladeira até o palácio, e de lá pela rua São Bento onde pararam diante do magnífico edifício do “Grand Hotel”, considerado então, o melhor do Brasil. De lá, seguiu sua viagem rumo ao Rio Grande do Sul.....
Quem foi Carl von Koseritz
Carl von Koseritz nasceu em Dessau, na Alemanha, em 1830 e faleceu repentinamente, no Rio Grande do Sul, a 30 de Maio de 1890. Deixando pais e irmãos na terra natal, partiu Koseritz para o Brasil, com apenas 21 anos de idade, engajado na qualidade de canhoneiro do 2.º Regimento de Artilharia, na tropa mercenária organizada por Sebastião do Rêgo Barros, para o serviço do Império. Passou, com seus companheiros, alguns dias no Rio, na caserna da Praia Vermelha, hoje desaparecida, e embarcou em seguida, para o Sul, de onde só deveria voltar 32 anos depois, já transformado na principal personalidade da colônia alemã e num jornalista e político que desfrutava de grande prestígio, mesmo fora dos círculos alemães. A viagem para o Sul foi péssima, e o velho barco em que iam os rapazes quase se perde nos baixios traiçoeiros da costa. Mas a nova pátria que tão hostilmente os recebia dentro em breve seria, para Koseritz, tão amada quanto a velha, que deixara mortificado de saudades. Com efeito o seu amor pelo Brasil foi sincero e grande e transparece claramente nas páginas escritas em seu livro, apesar da crítica, por vezes cruel, que defere contra os homens e as coisas do Império.
FONTES
BIBLIOGRÁFICAS
FIGUEIRA, Manuel Fernandes. Memória Histórica da Estrada de Ferro Central do Brasil. Imprensa Nacional, 1908.
GRINBERG, Isaac. Viajantes Ilustres em Mogi das Cruzes. São Paulo, 1992.
KOSERITZ, Carl von. Imagens do Brasil. Tradução de Afonso Arinos de Mello Franco. 1941. Biblioteca Histórica Brasileira, Livraria Martins Editora. Texto Original "Bilder aus Brasilien", editado na Alemanha em 1885. (Transcrição)
Este Artigo é obra de Carl von Koseritz e foi publicado em 1883 inicialmente no Jornal "Koseritz Deutsche Zeitung", no Rio Grande do Sul. Em 1885, este Texto, juntamente com outros veio a ser publicado em livro na Alemanha, com o título de "Bilder aus Brasilien", que foi mais tarde traduzido e publicado no Brasil com o título de "Imagens do Brasil". Foi recuperado, organizado, ilustrado e teve informações adicionadas por Christoffer R.
Para saber um pouco mais da
história das ferrovias da nossa região, dentre elas a E.F.
D. Pedro II e Companhia São Paulo & Rio de Janeiro, citadas
neste texto, não deixe de visitar
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