Atualizado em: 28/01/2004

Apresentação:

    O segundo Artigo deste mês de Outubro trata de uma pequena homenagem aos Ferroviários, homens que faziam com que esta Instituição chamada Ferrovia funcionasse. Ferroviários com F maiúsculo, que gostavam do que faziam, se esforçavam e com muito suor e imenso trabalho não deixavam a Ferrovia, no nosso caso a Central do Brasil, parar. Fica aqui esta pequena homenagem no texto de Luiz José Navarro da Cruz, intitulado "A Laboriosa Classe dos Ferroviários". Este Artigo foi publicado inicialmente no Jornal Semanário de Jacareí no ano 2000 na Série Retratos da Cidade. Depois de resgatar este fantástico relato, tomei a liberdade de transcrever este Artigo devido à grande importância histórica, merecendo ser transmitido a outras gerações por este meio tão dinâmico que é a Internet. Tentamos contato várias vezes com o Sr. Luiz José Navarro da Cruz, mas infelizmente não obtivemos sucesso. Se você, que leu este Artigo conseguir contato com ele, ou poder nos indicar uma maneira de podermos contatá-lo, ficaremos imensamente gratos. Não deixe de conhecer também os outros artigos.

Christoffer R.

Webmaster - ANPF

 


 

Outubro de 2003 - N.º 08

Texto de Luiz José Navarro da Cruz

 

 

A Laboriosa Classe dos Ferroviários - I

 

2003-2004 - 150 Anos da Ferrovia no Brasil

2003-2004 - 150 Anos da Ferrovia no Brasil

 

 

Foto da Locomotiva 373 acidentada, sendo encarrilhada com auxílio de macacos e fogueira de dormentes. Aqui, podemos ver a Laboriosa Classe dos Ferroviários posando para a fotografia, ficando assim para a posteridade este grande feito realizado com muito suor e imenso trabalho. Foto publicada no livro 127 Anos de Ferrovia, de Eduardo Gonçalves David. Da coleção particular do mesmo.

Foto da Locomotiva 373 acidentada, sendo encarrilhada com auxílio de macacos e fogueira de dormentes. Aqui, podemos ver a Laboriosa Classe dos Ferroviários posando para a fotografia, ficando assim para a posteridade este grande feito realizado com muito suor e imenso trabalho. Foto publicada no livro 127 Anos de Ferrovia, de Eduardo Gonçalves David. Da coleção particular do mesmo.

    Falar de locomotivas, trilhos e apitos, seria imprescindível ao discorrer sobre uma Ferrovia, mas, jamais poderíamos deixar de nos referir ao elemento humano que a ela se liga. Assim, fomos entrevistar alguns Ferroviários da “Velha-Guarda”, homens que punham em movimento este meio de transporte ferro-carril e que tiveram sua atuação profissional no chamado “Destacamento” de Jacareí.

    Pudemos, desde logo, identificar um fato constante nestas conversas, qual seja o orgulho de se ter pertencido a esta Profissão de Ferroviário. De fato, sente-se que havia um firme louvor ao trabalho e ímpar espírito de equipe. Pode-se dizer que, inúmeros casos, a profissão estava no sangue e, desta forma, se estabeleciam verdadeiras linhagens familiares no meio ferroviário. Não raro, pais, filhos, irmãos, tios e sobrinhos integravam o Clã da Central do Brasil.

    Conversando com o Maquinista José de Lima, hoje com 88 anos, ouvimos algo bem ilustrativo daquilo que acabamos de dizer: “posso declarar que nasci à beira da linha, pois meu pai também era Maquinista da estrada-de-ferro e residíamos em casa do pessoal da “Central”. E continuou: “quando me amamentava, sempre lembrou minha mãe, que eu interrompia aquela alimentação de bebê, para estar atento a cada trem que passasse. Já nasci um Maquinista de Locomotiva!”, completou.

Este é o Túnel citado pelo Sr. Lima em seu relato. O chamado Túnel das Piluleiras. Foi desativado em fins da década de 40 por não comportar o novo Material Rodante adquirido pela Central na época. Foto: Octávio Camerini

Este é o Túnel citado pelo Sr. Lima em seu relato. O chamado Túnel das Piluleiras. Foi desativado em fins da década de 40 por não comportar o novo Material Rodante adquirido pela Central na época. Foto: Octávio Camerini

    Mas, a glória de ser Maquinista envolveu também momentos de grande dramaticidade. Repetindo um episódio que nos narrou o Sr. Lima, vamos contar algo que merece ser lembrado. Um dia um trem de carga rumo a São Paulo, era encabeçado por duas locomotivas, que puxavam carga pesada, distribuída em dezena de vagões. As duas máquinas somavam força motriz, para por em movimento todo aquele peso. Quando a composição atravessava o estreito túnel de Guararema, a primeira máquina se soltou do engate, indo a toda velocidade túnel afora e deixando para trás a segunda locomotiva, engatada as vagões e guiada pelo Maquinista Lima. O trem ficava desta forma, apenas com meia tração e rodava lentamente pela escuridão. Sair para o ar livre era uma urgente questão de vida ou morte. A fumaça preta que se soltavam ia ficando confinada naquele ambiente fechado, tornando-se asfixiante e o calor vindo da fornalha da locomotiva era abrasador.

Uma vista interna do Túnel. Nele ainda podemos ver os sulcos dos dormentes que existiam em seu interior. Ao fundo, podemos ver a saída do outro lado. Ele tinha 200m de comprimento, e temos a impressão que ele tinha um pequeno declive. Foto: Octávio Camerini

Uma vista interna do Túnel. Nele ainda podemos ver os sulcos dos dormentes que existiam em seu interior. Ao fundo, podemos ver a saída do outro lado. Ele tinha 200m de comprimento, e temos a impressão que ele tinha um pequeno declive. Foto: Octávio Camerini

    O Foguista e o Graxeiro se enrolaram numa manta molhada, e assim o comandante da máquina ficou só para tentar o seu salvamento e de seus dois auxiliares. Conseguiu manter o controle, enquanto rezava pela proteção divina. A locomotiva desequilibrada, ia roçando a parede do túnel e desenvolvia baixa velocidade. O Sr. Lima fez o que pôde. Aumentava a pressão do vapor e soltava areia nos trilhos, recurso usado para evitar o deslizamento de ferro com ferro (roda e trilho) e aumentar a tração. Afinal, enxergou a luz da porta de saída do túnel e percebeu que um milagre se realizara. Estavam todos salvos.

    Ao rememorar o episódio de 50 anos atrás, o Maquinista José de Lima reconhece que “nasceu de novo”, graças a uma fibra de herói que dele se apoderou naquele momento. Tira o boné e, novamente, agradece aos santos de sua devoção, pois, na verdade, a gratidão é eterna.

    Vamos acrescentar o que, com atenção e interesse, ouvimos em conversas com Ferroviários que deram seu suor na Estação de Jacareí. Assim, nos contou o Sr. João Rosa da Silva, que os terrenos murados que compunham a propriedade da Central do Brasil, se constituíam num verdadeiro território sagrado, onde não havia outra autoridade a não ser a da Administração da Estrada de Ferro. Para se dar a medida disto, vejam que se um Ferroviário bebesse um pouco demais e perturbasse a ordem pública, a polícia poderia perseguí-lo, mas até o limite dos portões da Estação. Dali não passava. “Era um chão Federal muito respeitado”, definiu o Sr. João Rosa.

Seu Elói, um Ferroviário típico, em Mogi das Cruzes, atento às mensagens do Seletivo. Foto: Eduardo Gonçalves David, publicada no livro A Ferrovia e Sua História - Estrada de Ferro Central do Brasil. Conta minha avó, que o seu Elói era natural do Rio de Janeiro, e ela chegou a conhecê-lo em Mogi, já que meu avô foi um ex-funcionário da Central. Apontamento de Christoffer R.

Seu Elói, um Ferroviário típico, em Mogi das Cruzes, atento às mensagens do Seletivo. Foto: Eduardo Gonçalves David, publicada no livro A Ferrovia e Sua História - Estrada de Ferro Central do Brasil. Conta minha avó, que o seu Elói era natural do Rio de Janeiro, e ela chegou a conhecê-lo em Mogi, já que meu avô foi um ex-funcionário da Central. Apontamento de Christoffer R.

    Na época da Segunda Guerra Mundial, João Rosa entrou para o serviço da Ferrovia e pegou um período atípico nos serviços da Estação. O pátio ficava forrado de lenha e turfa, que eram usadas nas fornalhas das locomotivas, que, na época, eram todas do tipo acionado “a vapor”. As chamadas “marias-fumaça”. O carvão importado dos EUA, de grande potencial energético, estava com suas remessas suspensas em face das atividades bélicas e a hulha vinda de Santa Catarina era insuficiente para a demanda das máquinas. Muito interessante saber-se que a turfa colhida nos brejos ou pântanos, é material combustível e foi usado para ser queimado nas fornalhas de locomotivas.

    João Rosa, filho de Ferroviário e com irmãos também da mesma classe, trabalhou na equipe do “trem-socorro” e, inclusive operou o telégrafo da Estação de Jacareí. Até determinada época, a comunicação entre as Estações era feita por via telegráfica, quando na forma da torre de um aeroporto que comanda o tráfego de aviões, o tráfego de trens era controlado pelos sinais telegráficos emitidos de uma estação para outra, usando-se o “Código Morse”. Nesta época, o Sr. João batia papo com o Sr. Hélio, encarregado do telégrafo do Correio, através deste invento do italiano Marconi, que aproveitando as ondas eletromagnéticas, criou o telégrafo sem-fio (1896).

Mão firme no regulador e olhar atento à linha - a imagem do Maquinista. Foto do Jornal do Brasil, 1958. Publicada no Livro A Ferrovia e Sua História - Estrada de Ferro Central do Brasil, de Eduardo Gonçalves David.

Mão firme no regulador e olhar atento à linha - a imagem do Maquinista. Foto do Jornal do Brasil, 1958. Publicada no Livro A Ferrovia e Sua História - Estrada de Ferro Central do Brasil, de Eduardo Gonçalves David.

    Completando este retrato descritivo do ferroviário de Jacareí, propiciando por estas prazerosas conversas mantidas com nossos amigos: João Rosa da Silva, José de Lima e Octacílio Coimbra, vamos agora falar deste último, o qual também é oriundo de família ligada à Estrada de Ferro. Seu pai trabalhou na equipe de socorro de Jacareí e ele próprio foi um pouco de tudo em nossa ferrovia. De fato, ocupou desde o cargo de “guarda-freios” (elemento incumbido do engate e desengate de vagões), até a mais alta posição de ferroviário nesta cidade, como Encarregado-Geral da Estação de Jacareí. Como Chefe, nos conta que usava o uniforme tradicional da Central para tais cargos, que era o terno azul-marinho, gravata e quepe pretos, com camisa branca. Assim bem elegante, o Sr. Octacílio se aposentou em 1973, mas jamais perdeu aquele orgulho, ao qual nos referimos anteriormente, ou seja, um sentimento muito forte de grandeza pessoal, por ter pertencido a esta corporação - “o quadro de pessoal da Estrada de Ferro Central do Brasil”.

Luiz José Navarro da Cruz
 

 

 

 

 

 

Este Artigo é obra de Luiz José Navarro da Cruz, e foi publicado inicialmente no Jornal Semanário de Jacareí no ano 2000 na Série Retratos da Cidade. Tomamos a liberdade de transcrever este Artigo devido à grande importância histórica, merecendo ser transmitido a outras gerações por este meio tão dinâmico que é a Internet. Tentamos contato várias vezes com o Sr. Luiz José Navarro, mas infelizmente não obtivemos sucesso. Se você, que leu este Artigo conseguir contato com ele, ou poder nos indicar uma maneira de podermos contatá-lo, ficaremos imensamente gratos.

 

 

 

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