Atualizado em: 25/11/2004

Outubro de 2003 - N.º 07

Por José Emílio de Castro Horta Buzelin

 

 

O Sesquicentenário da Ferrovia no Brasil - II

O "Oportunismo Ferroviário": um mal que deve ser cortado imediatamente pela raiz.

 

2003-2004 - 150 Anos da Ferrovia no Brasil

2003-2004 - 150 Anos da Ferrovia no Brasil

 

    As comemorações do Sesquicentenário da Ferrovia brasileira são motivo de alegria e esperança para todos nós, ferroviaristas. Alegria, porque sinaliza a nossa oportunidade de mostrar todo um trabalho que vem sendo desenvolvido há tantos anos. Esperança, por sinalizar quiçá um novo tempo para o conceito ferroviário no País.

    O momento completa-se pela excelente onda favorável para o segmento, que encontra no discurso governamental vigente, a percepção da importância do sistema ferroviário e seus desdobramentos (desenvolvimento, turismo, crescimento econômico, etc).

    Por tudo isso, temos o seguinte quadro na atualidade: entidades preservacionistas dedicadas ao resgate da História Ferroviária Nacional, representadas por grupos especializados formados, estruturados e consolidados competentemente, a partir da idealização de um movimento em favor da Memória das Estradas de Ferro, que em média já representa mais de duas décadas de trabalho, seja através da preservação de equipamentos ou resgate de documentação histórica ferroviária; pesquisadores independentes que se debruçam em torno do tema, com seriedade e compromisso, numa verdadeira atividade de desbravamento e autêntica arqueologia ferroviária, trazendo inestimáveis subsídios; no âmbito das ferrovias operacionais, a discussão sobre o processo de desestatização (privatização) da malha ferroviária vigente está em voga, iniciando-se por parte do governo, através de entidade reguladora especializada (ANTT - Agência Nacional dos Transportes Terrestres), um processo de ajustamentos e revisão junto às empresas, etc; e, por parte do judiciário, através da Procuradorias da República em alguns Estados, a busca por explicações mais detalhadas a respeito do processo patrimonial ferroviário sob a responsabilidade da RFFSA - Rede Ferroviária Federal S.A. , dadas as diversas perdas representadas pelo depreciação de estações e material rodante, tidos "não operacionais" durante o processo acima citado e por 8 anos a completar, além de detalhes na relação patrimonial sobre as concessões.

    Muito bem. Como vimos, este é o cenário e são questões em pleno acontecimento, que coroam as vésperas do Sesquicentenário. Contudo, neste momento em que as discussões estão voltadas em favor da busca de soluções sob a égide política, começa a aparecer também um fenômeno que não é prerrogativa da questão ferroviária, mas que pode afetá-la tanto quanto - o oportunismo.

    Dito oportunismo, os movimentos e manifestações, em certo grau políticos, até então inertes (para se dizer o mínimo) sobre a ferrovia e seus interesses e necessidades. Um assunto irrelevante e que agora começa a despertar certos "ânimos". E neste ponto precisamos ficar absolutamente atentos, pois na maioria das vezes, esta condição aparece com quem desfruta de poder ou influência, simplesmente tomando de momento para si os valores pelos quais lutamos há tantos anos, tantas vezes às custas de sacrifícios até pessoais, em nome do ideal.

Selo lançado pelos Correios em 2002. Arte de Luiz Santos. Lamentavelmente até agora não foi confirmado nenhum produto filatélico dos Correios, seja em forma de Selo, Máximo Postal, etc., em comemoração aos 150 Anos da Ferrovia no Brasil.

Selo lançado pelos Correios em 2002. Arte de Luiz Santos. Lamentavelmente, em comemoração aos 150 Anos da Ferrovia no Brasil, não foi lançado nenhum produto filatélico dos Correios, seja em forma de Selo, Máximo Postal, etc.

    Não há dúvida de que o oportunismo é efêmero mas traz em seu bojo a presunção e a arrogância de quem, de repente, passa a bem feitor da causa e nós, simplesmente, desaparecemos na cortina de fumaça provocada.

    Não podemos permitir isto e o espaço que estamos construindo há tantos anos precisa ser respeitado e assim estamos firmes em nossos propósitos.

    Este oportunismo poderá acontecer, menos pela ferrovia e sim mais pelos holofotes que começam a ser virar para o segmento em função dos seus 150 Anos. E os "holofoteiros de plantão", geralmente poderosos e politicamente estruturados, já se encontram à postos e vigilantes para auferirem os tradicionais méritos e vantagens.

    Portanto, não podemos confundir as iniciativas legítimas que também começam a aparecer, com isto.

    Os 150 Anos da Ferrovia representam um marco e assim chamo para NÓS o mérito de todo um trabalho preservacionista realizado, para que fosse possível comemorar com dignidade o que se propõe.

    Não podemos nos esquecer do trabalho das entidades, que há tantos anos se dedicam, através de seus associados, amigos e colaboradores, para que a ferrovia seja um segmento digno em nosso país, no que tange também ao seus valores históricos, valores estes que se confundem com a essência do que nos tornamos como país e nação. Agora mesmo há uma série de movimentos originários destas entidades que representam um esforço hercúleo para que tenhamos um 30 de Abril digno de tudo que já se realizou em nome do significado ferroviário.

    Assim, o esforço de toda uma geração de trabalho, em prol da ferrovia, que se fez e faz em razão da dedicação e não do ganhar, não pode sucumbir diante das figuras oportunistas politicamente estruturadas, que começam a aparecer como "grandes autoridades a respeito".

    Convido-os a refletir, principalmente porque 2004 é também um ano de eleições. E eleições que estão sendo disputadas acirradamente desde já - e para ver a ferrovia se transformar em palco disto, não custa. Aliás...

    Certamente, atitudes positivas virão destes interesses, mas estas atitudes serão facilmente identificadas, se respeitosas com o espaço que já ocupamos. Condição contrária, revelará o que não podemos aceitar, definitivamente!

    A festa dos 150 Anos é nossa e do povo brasileiro, e de tantos quantos queiram colaborar verdadeiramente com aquilo que já fazíamos quando a ferrovia era o patinho feio e nós, rotulados, como um bando de loucos! Podemos até continuarmos loucos, mas a ferrovia voltará a ter o seu brilho existencial, que para nós jamais se apagou!"

José Emílio de Castro H. Buzelin
 

 

Esta Coluna é obra de José Emílio de Castro Horta Buzelin, Desenhista Industrial pela Universidade do Estado de Minas Gerais, com especialização na área de Ergonomia. Pesquisador Ferroviário, atua em atividades de Consultoria Técnica e Estudos sobre História e Memória das Estradas de Ferro no Brasil e atualmente exerce sua atividade como Sócio Fundador e Diretor da Memória do Trem.

 

 

 

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