Atualizado em: 25/11/2004

Setembro de 2003 - N.º 05

Por José Emílio de Castro Horta Buzelin

 

 

O Sesquicentenário da Ferrovia no Brasil - I

Manifesto

 

2003-2004 - 150 Anos da Ferrovia no Brasil

2003-2004 - 150 Anos da Ferrovia no Brasil

    Prezados amigos, o  ano de 2004 será particularmente importante para o meio ferroviário brasileiro, pois neste ano comemoram-se os 150 anos deste empreendimento em nosso país, a contar da operação do primeiro trem. Da iniciativa e dos primeiros estudos, temos as décadas de 20 e 30 do século XIX, como referência primitiva da iniciativa, o que aproxima a ferrovia a dois séculos, se contarmos a partir destas datas mais remotas.

    Se tomarmos por base a cronologia cristã, já se passaram dois mil e três anos desde o nascimento de Cristo; quinhentos deles são da "descoberta" de nossas terras brasileiras e 150 representam a fração em que a ferrovia está presente em nossa civilização e desenvolvimento. Portanto, nada desprezível!

    Fazemos parte de um grupo de pessoas que, por diversos motivos, se interessa pela ferrovia, sua história, sua modernidade, sua influência e nesta contrapartida também representamos um grupo testemunhal de uma fase bastante crítica da sua existência se tomada a comparação com outros períodos e valores.

    Mas é importante que nos fixemos não somente neste paradigma, que tantas vezes também nos cegam para uma realidade não menos valorosa e que vem trazendo a Ferrovia como a "locomotiva" indispensável em nosso país.

Composição da E.F. Mauá, a primeira Ferrovia Brasileira, inaugurada em 30 de Abril de 1854. Foto: Coleção Preserve.

Composição da E.F. Mauá, a primeira Ferrovia Brasileira, inaugurada em 30 de Abril de 1854. Foto: Coleção Preserve.

    O "passado" que tanto cultuamos também teve seus problemas e dificuldades, não menores ou menos complexos que os atuais - apenas houve uma mudança da percepção e das necessidades de cada tempo. Evidentemente, há muito por fazer e todos sabemos.

    Do passado nada mais podemos fazer a não ser resgatá-lo através da memória, por exemplo. Agora, pelo futuro muito há por fazer e neste "futuro" está o ano de 2004, em torno do qual poderemos trabalhar em favor das comemorações ferroviárias, iniciando-as desde já!

    Como fazer? Simples. Através das empresas concessionárias, públicas, entidades de classe, personalidades, enfim, todos que de algum modo possam atuar, lembrar e trabalhar para que a idéia do ferroviarismo seja algo mais do que a paixão de "poucos" e que a Ferrovia retome cada vez mais o seu papel como protagonista de uma história de desenvolvimento e modernidade.

    E temos muito o que comemorar. A ferrovia no Brasil não está órfã! Ela conta com empresas estruturadas que vêm atuando pela modernização do sistema; representamos entidades que vêm trabalhando com seriedade e profissionalismo em torno da imagem ferroviária; já contamos com uma bibliografia ferroviária nacional e que vem sendo reconhecida internacionalmente; estamos na vanguarda da mídia eletrônica (Internet) sobre ferrovias, com diversos sites e listas de discussão sobre o tema através da qual é operada uma verdadeira rede de troca de dados e informações, além da discussão histórico-ferroviária que se transformou nos últimos anos em verdadeira mania; entidades preservacionitas vêm se destacando fortemente, a exemplo da ABPF (Associação Brasileira de Preservação Ferroviária), que hoje desponta como a terceira em preservação ferroviária no mundo, seguida dos EUA e Inglaterra (ou Índia, salvo engano); o Brasil é o único país em toda a América Latina a ter a sua indústria de ferreomodelismo em escala, que é a Frateschi e que hoje comanda uma carteira de exportações para praticamente todos os continentes, além de ter implantado e manter com sucesso a filosofia e a bandeira do modelismo ferroviário nacional, a despeito da forte influência estrangeira ainda vigente. Acompanha esta condição, uma rede comercial de lojas e representações, que revelam o crescimento do "hobby' ferroviário em nosso país.

Mais uma foto da composição em outra oportunidade, com a Baroneza e dois Carros de Primeira Classe da E.F. Mauá. Fonte: Site História do Café no Brasil Imperial

Mais uma foto da composição em outra oportunidade, com a Baroneza e dois Carros de Primeira Classe da E.F. Mauá. Fonte: Site História do Café no Brasil Imperial.

    Por tudo isto e muito mais, devemos entender que apesar das dificuldades, há muito para se comemorar e o ano de 2004 aponta para nós com um elemento a mais: a crescente simpatia governamental vigente, que acena fortemente para a ferrovia, como há muitos anos não presenciávamos e que, em algum nível relevante, reflete o apoio político tão indispensável e isto já se faz sentir, pois a ferrovia começa, ainda que discretamente a se tornar um alvo de atenções mais elaboradas e comprometidas da sociedade como um todo.

    Então, temos duas escolhas: lamentar o passado que não vivemos ou construir o futuro e naturalmente a segunda opção vem se revelando como a tendência mais provável. Assim, cada um de nós, ao seu modo e em conjunto, pode fazer muito para que as comemorações em 2004 sejam dignas e memoráveis, à altura do que a ferrovia nacional representa para todos nós, por seus 150 anos e por sua atualidade.

Está em nossas mãos!

José Emílio de Castro H. Buzelin
 

 

Esta Coluna é obra de José Emílio de Castro Horta Buzelin, Desenhista Industrial pela Universidade do Estado de Minas Gerais, com especialização na área de Ergonomia. Pesquisador Ferroviário, atua em atividades de Consultoria Técnica e Estudos sobre História e Memória das Estradas de Ferro no Brasil e atualmente exerce sua atividade como Sócio Fundador e Diretor da Memória do Trem.

 

 

 

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