Revisado em: 21/02/2009

Apresentação:

         Este mês vamos conhecer um pouco da história do Ramal de Piquete, construído para escoar a produção da Fábrica de Pólvora Presidente Vargas, localizada na cidade de Piquete-SP e que funcionou de 1907 a 1985, ligando a referida cidade ao Ramal de São Paulo da Estrada de Ferro Central do Brasil, na cidade de Lorena-SP, num percurso pouco mais de 20km.

Marco Giffoni

Pesquisador Ferroviário e Assessor de Assuntos Históricos da ANPF

e-mail: hist@anpf.com.br

 


 

Agosto de 2003 - N.º 03

Por Marco Giffoni

 

O Trenzinho Piqueteiro  - O Ramal de Piquete da EFCB

Copyright: City Brazil - Cone Leste Paulista

Mapa da Região compreendida. Lorena (07) e Piquete (08).  Mapa retirado do Site City Brazil

 ©Cone Leste Paulista


    No governo do Presidente Campos Salles, o Marechal João Nepomuceno de Medeiros Mallet, Oficial de Artilharia e Engenheiro, então Ministro da Guerra, após haver desempenhado importantes comissões técnicas e de Estado Maior, elaborou um vasto programa de realizações em que previa a construção de uma fábrica de pólvora sem fumaça.

    Em 16 de Janeiro de 1901 foi nomeada a comissão para escolher o local mais apropriado para a instalação da fábrica de pólvora e, após estudos, concluiu seu trabalho em 17 de Dezembro de 1901 e, no dia 04 de Abril de 1902, através do Aviso N.º 15, dava-se a aprovação para construí-la. Entre os locais escolhidos encontravam-se as terras pertencentes ao Barão da Bocaina que, estando ciente dos planos do Governo, procurou pessoalmente o Ministro da Guerra e doou terrenos para a construção de um sanatório militar de convalescentes próximo a São Francisco.

    No dia 11 de Fevereiro de 1902 o Ministro da Guerra, o Marechal Mallet, veio em comitiva escolher o local apropriado para a instalação da fábrica e do sanatório, sendo recebido pela municipalidade de Lorena, de onde partiu para a Vila Vieira do Piquete, onde foi hospedado pelo Tenente José Mariano Ribeiro da Silva, no Hotel Santa Cruz, de onde dirigiu-se para São Francisco dos Campos. O Ministro escolheu a região de Lavrinhas para a construção do sanatório e a região da Fazenda Benfica, em terras piquetenses, para a fábrica de pólvora. Durante esta visita, o Ministro determinou também a construção de um Ramal Férreo que, partindo de Lorena (Estrada de Ferro Central do Brasil) atingisse a região do Benfica, na raiz da serra, facilitando o acesso e transporte a região onde seria construída a fábrica de pólvora.

    Não podendo as municipalidades ficarem indiferentes ante as iniciativas do Governo, a de Lorena conseguiu de diversos proprietários a cessão gratuita dos terrenos por onde passariam os trilhos da via férrea projetada, bem como fez as desapropriações necessárias para tal fim. As obras tiveram início logo após a visita do Ministro com a criação da “Comissão de Construção do Ramal Férreo Lorena a Benfica”, sob a direção do Coronel Bellarmino de Mendonça, que foi substituído mais tarde pelo Coronel Inácio de Alencastro Guimarães.

    No dia 03 de Fevereiro de 1902, chegava a Lorena o então 12.º Batalhão de Infantaria, que veio construir o ramal férreo com o efetivo de 450 homens sob o comando do Coronel Francisco Agostinho de Melo Souza Menezes e se instaram na Fazenda Amarela, pertencente à dona Angelina Moreira de Azevedo, mãe do Barão da Bocaina, que deu autorização para que o batalhão se instalasse gratuitamente em suas terras o tempo necessário para a realização das obras.

    Em 02 de Novembro de 1902, a edição N.º 800 do Jornal Correio do Norte, de Guaratinguetá, trazia a seguinte notícia:
 

Jornal Correio do Norte (Guaratinguetá), N.º 800 - 02 de Novembro de 1902

De Lorena a Benfica

Locomotiva de bitola métrica n.º 28 da EFCB no Ramal de Piquete. Provavelmente é uma ex-São Paulo e Rio de Janeiro. Foto: Coleção Prof.º Ércio Molinari, Lorena-SP. Cortesia: Marco Giffoni

Locomotiva de bitola métrica N.º 28 da EFCB no Ramal de Piquete. Provavelmente é uma ex-São Paulo e Rio de Janeiro. Foto: Coleção Prof.º Ércio Molinari, Lorena-SP. Cortesia: Marco Giffoni.

    “Conforme noticiamos, já foram assentados durante toda a semana finda, os primeiros trilhos da Estrada de Ferro que desta cidade se destina a Benfica, onde será construída a fábrica de pólvora sem fumaça.

    O trabalho de assentamento dos trilhos tem sido feito com admirável atividade, tendo os trabalhadores, nestes últimos dias, percorridos quase 2 quilômetros.

    O Sr. Coronel Bellarmino de Mendonça, Engenheiro-chefe da Comissão Construtora da Estrada, já requisitou a vinda de uma locomotiva para a mesma que deverá estar aqui até 4 de Novembro próximo, afim de facilitar o transporte de materiais para a conclusão de vários serviços até o dia 15 de Novembro.”

 

 

    Em 26 de Março de 1904, durante o governo do Presidente Francisco de Paula Rodrigues Alves, o seu Ministro da Guerra, o Marechal Argollo, acompanhado do Ministro da Indústria, Viação e Obras, Dr. Lauro Muller, veio com uma comitiva composta de Engenheiros e Técnicos inspecionar o andamento dos trabalhos do ramal ferroviário. Esta comitiva embarcou em Lorena, de trem e dirigiu-se até a então ponta dos trilhos, na Fazenda Conceição, localizada junto ao ribeirão do Ronco, onde inspecionaram as obras.

    No dia 22 de Julho de 1905, a comissão construtora instalou-se na Fazenda Estrela do Norte, iniciando as obras da barragem do rio Sertão e a construção da usina hidroelétrica que geraria energia elétrica para a fábrica de pólvora em construção. Nessa ocasião, o movimento de tropas e operários era grande, intensificando-se o trânsito na então pacata Vila Vieira do Piquete à medida que o ramal ferroviário se aproximava. E, finalmente, no dia 15 de Setembro de 1906, era solenemente inaugurada em Piquete, a Estação Rodrigues Alves e, em 1907 são concluídas as obras do ramal, sendo entregues ao tráfego 19,670 km em bitola métrica. A fábrica de pólvora, por sua vez, foi inaugurada no dia 15 de Março de 1909 pelo Presidente Afonso Pena.

Trem Piqueteiro na Estação Rodrigues Alves - Piquete-SP. Foto: Coleção Prof.º Ércio Molinari, Lorena-SP. Cortesia: Marco Giffoni

Trem Piqueteiro na Estação Rodrigues Alves - Piquete-SP. Fotos: Coleção Prof.º Ércio Molinari, Lorena-SP. Cortesia: Marco Giffoni.

Outra vista de Rodrigues Alves, já com o nome de Piquete. Trem Piqueteiro na Estação Rodrigues Alves - Piquete-SP. Foto: Coleção Prof.º Ércio Molinari, Lorena-SP. Cortesia: Marco Giffoni

Outra vista de Rodrigues Alves, já com o nome de Piquete.

    Na verdade, o Ramal de Piquete fazia parte de um projeto bastante audacioso, que era o prosseguimento dos trilhos desta cidade até a cidade de Itajubá-MG, onde se entroncaria com a então Rede Sul-Mineira, além de um outro trecho que seria construído posteriormente, partindo de Lorena até a localidade litorânea de Mambucaba, no Estado do Rio de Janeiro. O Decreto Legislativo N.º 3298, de 11 de Julho de 1917, autorizou a construção de uma linha férrea em continuação ao tráfego de Lorena a Piquete, em direção ao planalto central, passando por Itajubá e Pedra Branca, no Estado de Minas Gerais. Os estudos desta obra foram aprovados pelo Decreto N.º 9.638, de 26 de Junho de 1918 e a construção, iniciada em 1.º de Outubro de 1918, teve os seus trabalhos suspensos em 1921 com cerca de 38 km de infra-estrutura concluídos entre Itajubá e Imbatuba, que foram encampados pela Rede Sul Mineira posteriormente.

    Através do Aviso N.º 106, de 30 de Dezembro de 1921, foi entregue o trecho de Lorena a Piquete (Rodrigues Alves) à Estrada de Ferro Central do Brasil e o trecho entre esta Estação à Fábrica de Pólvora permaneceu sob administração do Ministério da Guerra.

O Ramal de Piquete compreendia as seguintes Estações:

- Lorena, que também servia ao ramal de São Paulo da EFCB, localizada no km 280,604.
- Ponte Paraíba, km 283,531, próxima à ponte ferroviária sobre o rio Paraíba.
- Angelina, km 288,021.
- Coronel Barreiros, km 291,028.
- Francisco Ramos, km 293,481.
- Itabaquara, km 296,431.
- Rodrigues Alves, que passou a ser denominada Piquete a partir de 1933, no km 297,531.

A partir da estação de Piquete a linha prosseguia sob a administração do Ministério da Guerra, onde estavam localizadas as seguintes estações:

- Estrella do Norte, km 298,818.
- General Mendes de Morais, km 300,051, localizada próxima à entrada da fábrica (além desta Estação ainda havia uma outra que localizava-se no interior da fábrica.)

    A partir da Estação de Estrela do Norte, iniciava-se um amplo território, que compreendia a Fábrica de Pólvora, guardado e defendido pelas tropas do Exército comandados por um Capitão de Infantaria. Nessa área ninguém entrava, nem a Polícia sem a autorização do Exército. Em Estrela do Norte localizava-se a zona residencial do contingente do Exército onde havia, dentre outras melhorias, um serviço de transporte sobre trilhos de trens, bondes e troles e, pelo menos duas pequenas estações ferroviárias que serviam à referida zona residencial.

    Além de escoar a produção da fábrica, o Ramal de Piquete também transportava passageiros e os operários da fábrica. Os trens de passageiros que percorriam este trecho eram conhecidos como os “Trens Piqueteiros”, que por muitos anos constituíram o principal meio de transporte para a cidade de Piquete. Por volta de 1947, o Ramal teve sua bitola modificada para 1,60m, possibilitando assim, a interligação com o Ramal de São Paulo, sem a necessidade de transbordo de cargas entre os vagões, mas tal mudança não alterou o transporte de passageiros vindos de Piquete, pois os mesmos que se dirigiam às cidades do Vale ou para o Rio e São Paulo ainda eram obrigados a fazer baldeações para os trens que se destinavam a estas cidades.

Aqui temos foto do "Trem Piqueteiro" nas proximidades da Estação de Lorena, com destino a Piquete.Foto: Coleção Prof.º Ércio Molinari, Lorena-SP. Cortesia: Marco Giffoni

Aqui temos outra foto do "Trem Piqueteiro" nas proximidades da Estação de Lorena, com destino a Piquete. Foto: Coleção Prof.º Ércio Molinari, Lorena-SP. Cortesia: Marco Giffoni

Nesta foto podemos ver melhor a junção do Ramal de Piquete (à esquerda) com o Ramal de São Paulo (à direita). Podemos notar na passagem de nível a existência de três trilhos. Isso se justifica pela foto ser tirada pouco tempo depois do alargamendo de bitola (de 1m para 1,60m) na década de 40. Foto: Coleção Prof.º Ércio Molinari, Lorena-SP. Cortesia: Marco Giffoni

Acima temos fotos de dois "Trens Piqueteiros" nas proximidades da Estação de Lorena, com destino a Piquete. Na foto abaixo podemos ver melhor a junção do Ramal de Piquete (à esquerda) com o Ramal de São Paulo (à direita). Podemos notar na passagem de nível a existência de três trilhos. Isso se justifica pela foto ser tirada pouco tempo depois do alargamento de bitola (de 1m para 1,60m) na década de 40. Fotos: Coleção Prof.º Ércio Molinari, Lorena-SP. Cortesia: Marco Giffoni.

    A partir da década de 50 e com as melhorias realizadas na estrada de rodagem entre Lorena e o Sul de Minas, que passava por Piquete, os trens do Ramal de Piquete começaram a perder seus passageiros e cargas para os caminhões e para as empresas de ônibus que começaram a crescer na região do Vale do Paraíba, e com isso o número de trens foi diminuindo. Apesar de ser uma linha deficitária, o Ramal de Piquete não foi incluído no programa de erradicações de linhas deficitárias, na década de 60, por ser considerado de interesse militar, o que garantiu uma “sobrevida” para o ramal, adiando sua extinção.

    A partir de então, o movimento do ramal foi diminuindo, o trem de passageiros foi desativado na segunda metade da década de 70 e os trens de carga só corriam esporadicamente, quando a fábrica de pólvora recebia matéria-prima ou escoava a sua produção. No último ano de funcionamento do ramal, em 1977, a RFFSA transportou de Lorena até Piquete 72 vagões de nitrato, 16 de salitre e 3 de algodão e, em Dezembro deste mesmo ano o ramal foi desativado. Alguns ferroviários que trabalharam na RFFSA na época do funcionamento deste ramal afirmam que todas locomotivas diesel circularam pelo menos uma vez neste trecho, inclusive as U23C e as SD18 e SD38, mas tal fato não dá para se comprovar com certeza, pois ao que parece, este ramal não possuía condições, principalmente nas pontes, de suportar a circulação de locomotivas tão pesadas, mas pelo que conseguimos apurar, descobrimos que as locomotivas U5B e U6B, bem como as RS-3 circularam por este trecho com mais frequência.

    Após sua desativação, os trilhos ainda permaneceram abandonados até que, em 1983, a Prefeitura de Piquete desapropriou os bens da RFFSA e retirou os trilhos do município, construindo uma avenida em seu lugar. Em Lorena, os trilhos ainda permaneceram até 1985, quando foram retirados pela própria Rede.

Aqui foto da linha em 1983 na zona urbana de Lorena, com os trilhos ainda abandonados. Foto: Coleção Prof.º Ércio Molinari, Lorena-SP. Cortesia: Marco Giffoni Aqui outra foto da linha em 1983 na zona urbana de Lorena, com os trilhos ainda abandonados. Foto: Coleção Prof.º Ércio Molinari, Lorena-SP. Cortesia: Marco Giffoni
Aqui temos foto da retirada dos trilhos pela RFFSA com a utilização de um guindaste. Foto: Coleção Prof.º Ércio Molinari, Lorena-SP. Cortesia: Marco Giffoni Aqui temos outra foto da retirada dos trilhos pela RFFSA com a utilização de um guindaste. Foto: Coleção Prof.º Ércio Molinari, Lorena-SP. Cortesia: Marco Giffoni

Acima temos fotos da linha em 1983 na zona urbana de Lorena, com os trilhos ainda abandonados. Abaixo temos fotos da retirada dos trilhos pela RFFSA com a utilização de um guindaste. Fotos: Coleção Prof.º Ércio Molinari, Lorena-SP. Cortesia: Marco Giffoni.

    Do ramal de Piquete quase nada restou, a não ser a ponte sobre o rio Paraíba, transformada em ponte rodoviária, e as Estações de Piquete, Estrela do Norte e General Mendes de Morais, estas duas últimas em bom estado de conservação. O “Trem Piqueteiro” ainda é lembrado com saudade pelas pessoas que o conheceram, muitos ainda sonham com a reconstrução da linha, possibilitando a circulação de um trem turístico, mas como sabemos, tal fato é praticamente impossível de acontecer.

"Trem Piqueteiro" passando sobre a ponte do Rio Paraíba do Sul na saída do perímetro urbano de Lorena. Foto: Coleção Prof.º Ércio Molinari, Lorena-SP. Cortesia: Marco Giffoni

Aqui temos a ponte nos dias atuais. Foto: Marco Giffoni.

Aqui temos outra foto da ponte nos dias atuais. Foto: Marco Giffoni.

Acima temos o "Trem Piqueteiro" passando sobre a ponte do Rio Paraíba do Sul na saída do perímetro urbano de Lorena. Abaixo temos a ponte nos dias atuais. Fotos: Coleção Prof.º Ércio Molinari, Lorena-SP (Acima). Marco Giffoni (Abaixo). Cortesia: Marco Giffoni.

    Uma das últimas lembranças do ramal de Piquete, que era seu entroncamento com o ramal de São Paulo, em Lorena, foi retirado em 2001 a pedido da Prefeitura deste município que precisava da área para colocar em prática o seu projeto de revitalização da Estação. Em Piquete, por volta de 2002, foi colocada como monumento em frente à estação Estrela do Norte, uma locomotiva a vapor de bitola métrica (N.º 223, ex-RMV) e um carro de passageiros (ex-NOB) como lembrança do trenzinho Piqueteiro que por muitas vezes circulou por aqueles trilhos...

Estação Estrela do Norte, na entrada do primeiro portão com destino à Fábrica de Pólvora, hoje operada pela IMBEL. A Locomotiva N.º 233 ex-RMV juntamente com um carro de madeira ex-NOB viraram um monumento estático. Foto: Marco Giffoni

Estação Estrella do Norte, na entrada do primeiro portão com destino à Fábrica de Pólvora, hoje operada pela IMBEL. A Locomotiva N.º 233 ex-RMV juntamente com um carro de madeira ex-NOB viraram um monumento estático. Foto: Marco Giffoni.

Marco Giffoni

FONTES BIBLIOGRÁFICAS

CHAVES, Antonio Carlos M. A presença militar na Vila Vieira do Piquete: Fator de crescimento e desenvolvimento. Arquivo Memória de Piquete. Boletim N.º12, 1996.
VASCONCELOS, Max. Vias Brasileiras de Comunicação. IBGE. 1947.

De Lorena a Benfica. Jornal Correio do Norte, N.º 800, 02/11/1902.
Trens de passageiros não voltarão ao Vale. Jornal Valeparaibano, 1987.
Guia Geral das Estradas de Ferro e empresas de transportes com elas articuladas, 1960
Arquivo Memória de Guaratinguetá – Museu Frei Galvão

 

As fotos que ilustram este Artigo pertencem ao acervo do Professor Ércio Molinari, de Lorena-SP e também ao acervo de Marco Giffoni, de Caçapava-SP.

 

 

 

Esta coluna é obra de Marco Giffoni, licenciado em História pela Universidade de Taubaté (UNITAU), membro da ANPF e pesquisador da História Ferroviária da nossa região. Colaborou também com informações, ilustração e organização do texto Christoffer R.
 

 

 

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