Atualizado em: 25/11/2004
Apresentação:
José Emílio de Castro Horta Buzelin é Desenhista Industrial pela Universidade do Estado de Minas Gerais, com especialização na área de Ergonomia. Pesquisador Ferroviário, atua em atividades de Consultoria Técnica e Estudos sobre História e Memória das Estradas de Ferro no Brasil e atualmente exerce sua atividade como Sócio Fundador e Diretor da Memória do Trem. Tem participação em diversos Livros, dentre eles, temos dois de sua Autoria: Carros Budd no Brasil - 1: Os trens que marcaram época e O Livro da V-8 e da Escandalosa. Participou ainda de Livros como Co-Autor e Colaborador, principalmente da Memória do Trem. Além disso, já escreveu colunas para a Revista Ferroviária, e matérias para o antigo Informativo Centro-Oeste, transformado hoje em Site. Dentre outros projetos que participou, ainda podemos citar a sua tentativa de manter uma Regional da ABPF em Belo Horizonte, e a participação no antigo Museu Ferroviário de Belo Horizonte.
José Emílio de Castro Horta Buzelin
Julho de 2003 - N.º 02
Por José Emílio de Castro Horta Buzelin
O Historiador e a Ferrovia - O "Médico" e o "Louco"
"Festa de Inhambú, Jacu não entra!" Este trocadilho é muito
comum - pelo menos em minha terra, aqui nas Gerais - para
caracterizar "o devido lugar de cada um" naquilo que faz em
relação ao que domina e entende.
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Antiga Estação de Belo Horizonte, cidade de onde escreve nosso novo Colunista. Foto: Memória Histórica da EFCB, de Manuel Fernandes Figueira. Coleção: Christoffer R. |
Mas a modernidade do pluralismo e da versatilidade em torno da qual a nossa sociedade vem se estabelecendo, e por tantas vezes até determinando esta vertente de variações, faz com que vários papéis sejam exercidos por cada um de nós no dia-a-dia, a vida pessoal ao trato mais profissional de nossas relações de trabalho. Até por necessidade.
Contudo, há de se respeitar que existem funções e atividades que definitivamente não podem ser "exercidas" sem o devido preparo técnico, erudito e funcional, sob pena do caos irreversível. Outras atividades, entretanto, sugerem maior flexibilidade, não obstante os instrumentos formais que são necessários para a sua correta realização.
Posso citar dois extremos: a medicina e o desenho industrial. A profissão médica não pode ser exercida por ninguém mais que o médico. Tão óbvia quanto possível, esta afirmativa tem um objetivo: apontar para o fato de que os 6 anos de formação de um profissional da saúde, mais a sua residência de trabalho, são parte "modesta" de sua suficiência para lidar com vidas humanas, para começar! E no entanto aqueles que se aventuram a gostar de um bisturi, sem nunca terem frequentado ao menos uma aula de biologia de primeiro grau, acabam invariavelmente com sérios problemas...
Nosso saudoso amigo e pesquisador-historiador ferroviário, Prof. Francisco Araújo, nosso estimado "Xhyco Bragantina" dizia: "porque gosto de medicina, não significa que estou habilitado para exercê-la" . Tão médico quanto astronauta, o "Xhyco" apenas queria lembrar a essência da frase com a qual começo este artigo.
Já o desenhista industrial, embora profissional de curso superior e com 5 anos de curriculum, vê sua profissão ser aos poucos tragada por hábeis curiosos-talentosos usuários de programas de computador, que encontram em suas mãos criativas a perspectiva do exercício da profissão, sem que existam maiores consequências, afinal, salvo por questões éticas - tão raras quanto possíveis - a única susceptibilidade humana de risco existente neste caso é o senso de estética e, que se saiba, nada tão bonito quanto feio já foi capaz de tirar vidas...
Mas uma verdadeira volta ferroviária foi dada aqui para chegar a uma estação onde existe o "Hospital História". Este, que fica "no meio do caminho" entre o passado e o futuro e se trata de uma instalação muito bonita, bem construída, bastante freqüentada mas - pelo menos até hoje - poucos foram os seus verdadeiros chefes. Estes, os historiadores.
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Engenheiro, duas vezes Diretor da Estrada de Ferro Central do Brasil, grande Homem e grande Humanista, Dr. André Gustavo Paulo de Frontin. Foto: Memória Histórica da EFCB, de Manuel Fernandes Figueira. Coleção: Christoffer R. |
No Brasil podemos contar nos dedos de um caracol-de-jardim os historiadores profissionais que se dedicaram a estudar e a abraçar a ferrovia, quando, na verdade, esta deveria ser a função deles. Até hoje nos livros didáticos e nas eloqüentes aulas o paradigma do trem-bala japonês e a supremacia européia em ferrovias, quando os carris são lembrados, representam o máximo de informação que se consegue extrair e isto já faz aniversário de uns 25 anos... Mais batido que bola de futebol em jogo de final.
Mas, existe uma máxima filosófica que diz "a natureza não admite o vácuo" e assim todos nós acabamos ocupando o que "ninguém mais quis ou se habilitou a fazer" - menos por habilidade e mais por QUERER!
Engenheiros, Químicos, Museólogos, Arquitetos, Professores, Desenhistas Industriais, Médicos(!), Administradores, Bacharéis em Direito, Analistas em Informática, Técnicos, Estudantes, Curiosos, Aficionados, Industriais, Observadores, etc, se aventuraram por aí em nome de resgatar a história dos nossos trens e de nossas linhas. E o fazem, e bem! Está certo? Sim, como não? Toda iniciativa em favor de se construir e resgatar algo é mais que louvável. Porque a história e seus desdobramentos passaram a integrar a vida de cada um destes, com algo tangível e, em alguns casos, mais tangível do que sua própria profissão!
Apenas para lembrar que dentre esses existe, lá no meio, mais ou menos escondido, também o historiador, este sim, observador mais credenciado para conjugar os verbos do passado e do presente!
Dentre estes, devo confessar até hoje conhecer somente um, em nosso metiê de interesse e visão - o amigo Marco Giffoni, que discretamente vai se preparando para exercer a profissão mais certa para traduzir um pouco de todos nós, naquilo que é a ferrovia e a sua história.
Amigo Giffoni (e mais algum amigo historiador que eu porventura desconheça ou esteja lamentavelmente esquecendo), por favor não repare! Estamos todos aqui no "Hospital História" esperando também pelo "médico-chefe" e sabemos que você irá em breve assumir o devido papel! Enquanto isto, alguns de seus amigos ficam aqui pelo hospital, resgatando aqui e acolá, até fazendo algum trabalho seu, mas quero que saiba: nosso bisturi, por mais afiado que seja por nossas lembranças, experiências, vivências e conhecimentos acumulados ou comprovada competência, não será o mesmo que aquele em suas mãos. Já podemos ter "matado" muito, até sem saber, mas também salvamos diversas vidas, vidas estas traduzidas por fotos, dados, informações, desenhos, plantas, depoimentos, e até locomotivas e trens inteiros! Numa verdadeira ação de resgate como "paramédicos". Mas apesar de tudo, estou certo de que poderemos continuar como uma espécie de "enfermeiros", para ajudá-lo e aos seus colegas a cuidar deste paciente chamado memória e que em nosso país precisa de constantes cuidados clínicos. E na especialidade ferrovia ainda não encontramos um bom médico... quando muito um residente, que vê, cuida um bucadim e vai embora trabalhar com outro campo.
Isto quando não aparece alguém que busca nos meios de comunicação subsídios para provar que a ferrovia é inviável (uma leitora na última Revista Ferroviária, dizendo-se pós-graduanda em alguma coisa está querendo defender a tese da inviabilidade ferroviária - procurem! Lá tem o e-mail dela!!! Merece a nossa mais calorosa atenção!)
Tornamo-nos "médicos" da história ferroviária pelo empirismo e pela prática - quiçá como médicos da antiguidade, estes, que prepararam o caminho para a bela profissão sacerdotal da medicina.
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Foto da nova Estação de Belo Horizonte. Foto: (?) (Cartão Postal) |
E ao historiador não caberá papel diferente! Bastará ele assumir!
Talvez esta visão não seja unânime e acredito que não tanto quanto espero, mas o objetivo aqui é lembrar que apesar do longo, dedicado e competente trabalho de tantos "não-médicos", dentre os quais me incluo como um dos mais atrevidos neste exercício, ao longo já de um par de décadas, ao menos devemos considerar que a ética profissional não pode ser esquecida.
Portanto, àquele que se preparar com os instrumentos profissionais que cabem ser considerados, vamos dar a devida atenção e respeito, pois 4, 5 ou 6 anos de preparação não podem ser desprezados.
E depois, fica valendo o ditado, enquanto isto: "de médico e louco..."
Loucos já
somos! O que falta então?
Esta Coluna é obra de José Emílio de Castro Horta Buzelin, Desenhista Industrial pela Universidade do Estado de Minas Gerais, com especialização na área de Ergonomia. Pesquisador Ferroviário, atua em atividades de Consultoria Técnica e Estudos sobre História e Memória das Estradas de Ferro no Brasil e atualmente exerce sua atividade como Sócio Fundador e Diretor da Memória do Trem.
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