Revisado em: 03/05/2008

Apresentação:

 

    Foi com um imenso prazer que aceitei o convite dos amigos da ANPF para escrever esta coluna no site da referida Entidade, que contribui e com certeza contribuirá muito mais ainda com a Preservação da Memória Ferroviária da nossa região.


    Como todos sabem, reconstruir a história da ferrovia no Brasil é uma tarefa muito árdua, visto a grande escassez de fontes e o descaso com que grande parte da população tem em relação à ferrovia em nosso país, mas, apesar de todos esses aspectos negativos, procuramos fazer o possível para que a Memória Ferroviária na nossa região não se perca para sempre. É um trabalho que caminha num ritmo bem lento mas sempre recompensado, pois sempre encontramos documentos, fotos, dentre outros artigos, que contribuem muito com o enriquecimento da História Ferroviária na nossa região, isso sem esquecer o apoio de inúmeras pessoas entre ferroviários, ex-ferroviários ou simplesmente admiradores de trens que também contribuem muito conosco.

 

    E é justamente um desses “achados” que gostaria de compartilhar com vocês ao inaugurar esta Coluna: trata-se de um Artigo, de autor ignorado, publicado no Jornal “Correio do Norte”, de Guaratinguetá-SP, em que descreve as Comemorações do Dia do Trabalho nas Oficinas da EFCB, na Estação do Norte, em São Paulo no ano de 1936. Tais Comemorações eram, na realidade o cumprimento de uma promessa, feita pelos Ferroviários à Nossa Senhora Aparecida em 1932, durante a Revolução Constitucionalista.


    Um grande abraço a todos e uma boa “Viagem” pelos Trilhos da História...

 

Marco Giffoni

Pesquisador Ferroviário

marcogiffoni@uol.com.br

 


 

Julho de 2003 - N.º 01

Por Marco Giffoni

 

Jornal Correio do Norte (Guaratinguetá e Apparecida), N.º 01 - 07 de Maio de 1936

 

 

Nas Officinas da Estrada de Ferro Central do Brasil
Como foi comemorado o 1.º de Maio
 

    Consoante o programa divulgado, o pessoal operário da EFCB comemorou a passagem da data sagrada da Festa do Trabalho, dia feriado nacional.
   

Tropas partindo de São Paulo em direção ao Vale do Paraíba em um Trem da Central do Brasil. Foto: ?

Tropas partindo de São Paulo em direção ao Vale do Paraíba em um Trem da Central do Brasil. Foto: (?)

    O programa publicado revelava uma particularidade, toda original, para comemorações de dias feriados: iam realizar-se solenidades de caráter religioso.

   

    A originalidade, se acaso era reveladora da formação moral e religiosa do bem operariado da Central e, por isto, bastante conservadora nesta hora em que gente desalmada e sem patriotismo sonda em torno das classes trabalhadoras para arrastá-las às desordens e para uma obra criminosa contra as instituições básicas da nacionalidade; ainda assim, não ficava bastante explicada e não revelava toda a delicadeza daquelas almas, afeitas ao trabalho e aos perigos das profissões humildes dos ferroviários, que, por essa forma queriam comemorar a Festa do Trabalho.


    A idéia de ser celebrado o Primeiro de Maio, com todos atos de piedade e de devoção à Senhora da Conceição Aparecida, tem sua história bem ligada à Revolução Constitucionalista de São Paulo, o nosso memorável, 09 de Julho de 1932.

Soldados em guarda no túnel da Serra da Mantiqueira, divisa entre São Paulo e Minas Gerais na linha da RMV que partia de Cruzeiro com destino a Minas Gerais. O local foi palco de grandes batalhas durante o conflito.  Fonte: Site 1932 - Retrato de uma Guerra

Soldados em guarda no túnel da Serra da Mantiqueira, divisa entre São Paulo e Minas Gerais na linha da RMV que partia de Cruzeiro com destino a Minas Gerais. O local foi palco de grandes batalhas durante o conflito.  Fonte: Site 1932 - Retrato de uma Guerra.


    Naqueles dias, foi na zona do túnel, divisas de São Paulo e Minas, e na zona onde se delimitavam São Paulo e Rio de Janeiro, que a luta se empenhou feroz, constante e formidável.


    Todo o nosso serviço de transporte de materiais de guerra e de soldados, para aquelas frentes, se fazia pela Central do Brasil. O movimento de trens foi extraordinário, de dia e de noite, silvavam as locomotivas e os carros rodavam sobre os trilhos, sem uma hora de repouso. Não valeram menos para as nossas hostes, os soldados que se batiam nas trincheiras que aqueles rudes e modestos trabalhadores, maquinistas, guarda-freios, pessoal de linha, chefes de trem, etc, etc... que trabalhavam sem descanso, afrontando os perigos. Eles bem que pressentiam, mas punham acima de tudo o seu ardor patriótico e o cumprimento de seus deveres nos seus respectivos postos. Foram dignos de todos os louvores e foram auxiliares preciosos para as realizações dos Ideais Paulistas.


 

    Os maquinistas tinham naqueles dias, a feliz lembrança de fazerem uma promessa à Nossa Senhora Aparecida, já aclamada Padroeira do Brasil, caso até findar a Revolução, nenhum desastre ocorresse nas linhas e nenhum homem, a serviço do tráfego, fosse morto ou ferido. Sabemos com que freqüência infelizmente se repetem desastres, descarrilamentos, etc, etc, no trecho que vai de São Paulo a Cachoeira.


    Pois, entretanto, nos dias de tráfego intenso, entre 09 de Julho e 30 de Setembro, não ocorreu ali um só acidente de linha, como não houve um só homem ferido entre o pessoal da Central, quanto mais a perda de uma vida.

 

Trem da Central com destino a Piquete - SP. Foto: ?

Trem da Central com destino a Piquete - SP. Foto:(?)

    A suplica dos bravos operários foram ouvidas pelo céu. É comum o hábito de promessas ao céu, na hora das aperturas, mas do seu cumprimento, após as graças recebidas, não é lá assim tão comum. Em regra vai sendo adiada e acaba caindo no ouvido.
  

    Os operários da Central prometeram alcançar dos seus chefes licença para transformar uma sala da seção de maquinistas, em Capela, onde seria colocada a imagem de Nossa Senhora Aparecida. E, nesta capela, fariam, anualmente celebrar uma missa cantada – a Primeiro de Maio, seguindo-se procissão na qual levariam a imagem em visita a todas as Oficinas e dependências da seção de tráfego na Estação do Norte.


    O seu pedido foi acolhido, pelos seus chefes, com grande prazer e todos eles se declararam solidários com seus subordinados, prometendo tomar parte nas piedosas comemorações e em tudo auxiliá-los. Em 1934, a capela estava instalada e, no pátio, entre os edifícios se realizou a primeira missa a 1.º de Maio. Em 1935 se repetiu o cumprimento do voto e agora em 1936 ele teve realização, com a integral solidariedade dos engenheiros da estrada, dos chefes de serviço e das famílias de todos com grande esplendor. Bem digno de registro é essa felicidade dos beneficiados em 1932, e a solidariedade dos que lhes vem sucedendo no compromisso de consciência que naquela data assumiram. É desta pequena história e deste grande milagre, que se prolongou desde 09 de Julho até 30 de Setembro, que surgiu a originalidade da festa religiosa e piedosa, comemorativa, do Gomes Cardim, rua Uruguayana, e solene, oficiou o reverendíssimo Monsenhor Ladeira, vigário do Brás. A missa foi acompanhada a grande orquestra, dirigida pelo maestro Benedicto O. Berti. Ao Evangelho falou

Ponte ferroviária do Ramal de Piquete, sobre o Rio Paraíba do Sul em Lorena - SP, destruída durante a Revolução de 32. Temos o flagrante de uma Locomotiva atravessando o rio em uma balsa. Foto: Coleção Prof.º Ércio Molinari, Lorena-SP. Cortesia: Marco Giffoni

Ponte ferroviária do Ramal de Piquete, sobre o Rio Paraíba do Sul em Lorena - SP, destruída durante a Revolução de 32. Temos o flagrante de uma Locomotiva atravessando o rio em uma balsa. Foto: Coleção Prof.º Ércio Molinari, Lorena-SP. Cortesia: Marco Giffoni.

o reverendíssimo Padre Estevam Maria, redentorista de Aparecida do Norte; às 12 horas e meia, retreta pela banda “Santa Cecília”; às 13 horas e meia – Confluência pelo Sr. Dr. Vicente Milillo; às 14 horas, saiu da capela a imponente procissão, com as imagens de Nossa Senhora Aparecida, Santa Therezinha, conduzidas pelas famílias dos funcionários da Central; escritório, oficina, tração, tráfego e via permanente, acompanhada pela Pia União das Filhas de Maria do Braz, da Penha e de Mogi das Cruzes, os Vicentinos, da Circunscrição do Conselho Particular do Braz, as Ligas Católicas “Jesus, Maria e José”, da EFCB, o Centro Operariado Católico de São Paulo, todos com seus distintivos e estandartes. Foi o seguinte itinerário: em volta do depósito de locomotivas, na parte exterior houve parada de um minuto e, em seguida foi entoado o hino de Nossa Senhora Aparecida, continuando o cortejo pelo portão da Estrada, seguindo à rua Dr. Almeida Lima, rua 21 de Abril, rua Gomes Cardim, rua Uruguayana, e, novamente rua Dr. Almeida Lima, onde fez a sua entrada triunfal na Capela.

A comissão organizadora dessa festa estava constituída:

Engenheiros:
 

- Dr. José Custódio de Carvalho Drumond
- Dr. Otto Ribeiro
- Dr. Aluísio de Castro

Maquinistas:

Tropas em Cachoeira Paulista, durante a Revolução de 32. Foto: Cortesia: Ralph M. Giesbrecht

Tropas em Cachoeira Paulista, durante a Revolução de 32. Foto: Cortesia: Ralph M. Giesbrecht.

 

- Antonio Eugenio de Macedo
- Antonio Coelho de Amorim Junior
- Jayme Gomes

- Pedro de Alcantara
- José Fagundes dos Santos

Chefe de Estação:
 

- Mario Nogueira

Mestre de Oficina:
 

- Máximo Urirello

Foguista:
 

- João Rosa

Escrevente:
 

- José Fernandes Figueira

    Todos os atos tiveram enorme assistência e revestiram-se de muito brilhantismo, tudo parecendo indicar que, esse modo de comemorar o 1.º de Maio, entre o pessoal operário da Central ganhou raízes e ficará tradicional.

Estação de Lorena durante o Conflito: Tenente Ibiritê Amaral, Capitão Luiz Phelippe de Albuquerque, 1.º Tenente Bicudo de Castro, Major Zenobio da Costa, Tenente-Coronel Alvaro Dutra, Capitão Nelson Mello, Major Agricola Bethlem, Major Affonso Ribeiro. Foto: Cortesia: Ralph M. Giesbrecht

Estação de Lorena durante o Conflito: Tenente Ibiritê Amaral, Capitão Luiz Phelippe de Albuquerque, 1.º Tenente Bicudo de Castro, Major Zenobio da Costa, Tenente-Coronel Alvaro Dutra, Capitão Nelson Mello, Major Agricola Bethlem, Major Affonso Ribeiro. Foto: Cortesia: Ralph M. Giesbrecht.

 

 

Contextualizando

Revolução de 32, alguns apontamentos

 

Cartaz da Revolução. Fonte: Site 1932 - Retrato de uma Guerra

Cartaz da Revolução. Fonte: Site 1932 - Retrato de uma Guerra.

    Uma das primeiras e mais importantes reações contra a nova ordem política instaurada em 1930 foi o Movimento Constitucionalista de 1932, ocorrido em São Paulo. As elites Paulistas, que haviam sido as maiores beneficiárias do sistema vigente na Primeira República pretendiam, com esse movimento, retomar o controle político que haviam perdido com a Revolução de 1930. Além deste fato, a demora do governo provisório de Getúlio Vargas em convocar a Assembléia Constituinte, gerava muitos descontentamentos, principalmente, no Estado de São Paulo.


    O movimento de 1932 despertou o sentimento patriótico da maior parte da população do Estado, tanto nas elites quanto nas camadas mais pobres da população e, em 9 de Julho, estourou a Revolução Constitucionalista, que foi sufocada pelas tropas legalistas após setenta dias de luta. Seus líderes foram presos e exilados, mas mesmo assim apesar da derrota, os revolucionários conseguiram parte de seus objetivos, pois Getúlio Vargas convocou eleições para a Assembléia Constituinte, sendo a nova constituição promulgada em 1934.

 

 

 

O embarque dos Soldados Paulistas para as Frentes de Batalha, enaltecidos pela População.  Fonte: Site 1932 - Retrato de uma Guerra

O embarque dos Soldados Paulistas para as Frentes de Batalha, enaltecidos pela População.  Fonte: Site 1932 - Retrato de uma Guerra.

    O Vale do Paraíba, devido estar localizado na fronteira com os estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro, foi uma das regiões onde os combates foram mais intensos, gerando grandes transtornos para a população. As Estradas de Ferro da região desempenharam, nesta ocasião, um papel fundamental, tanto no transporte de tropas e armamentos como também no transporte de um grande número de pessoas que foram obrigadas a fugir de cidades, como Queluz, Cachoeira Paulista, Lorena, Piquete, Guaratinguetá, que, por estarem localizadas nas fronteiras do Estado, foram as mais castigadas durante o Movimento Constitucionalista.


 

    Estas pessoas fugiam para a cidade de São Paulo ou para cidades localizadas mais próximas da Capital e, utilizavam, em sua maioria o Trem como meio de transporte, devido a vários fatores como a precariedade do transporte rodoviário na época, dentre eles. As viagens de Trem eram arriscadas, devido ao risco dos trens serem alvejados no percurso pelo “Vermelhinho”, avião legalista que constantemente fazia incursões na região. Estes ataques ocorriam porque os trens além de transportarem civis, também levavam tropas e armas.


    Sobre estas viagens ocorridas no período da Revolução existem vários relatos registrados nos arquivos históricos das Cidades Valeparaibanas, que com certeza serão tratados em outra oportunidade.

 

 

Curiosidades

Área da Oficina que foi atingida durante a Revolução. Foto: Christoffer R.  

Área da Oficina que foi atingida durante a Revolução de 1924. Foto: Christoffer R.  

 

    A Capela que é citada no texto do Jornal Correio do Norte, existe ainda hoje com o nome de Capela "Nossa Senhora Aparecida dos Ferroviários", e está localizada na esquina do cruzamento da rua Dr. Almeida Lima com a rua Visconde de Parnaíba, nos fundos das antigas Officinas do Norte, hoje Oficina Roosevelt da CPTM. Fica próxima ao Memorial do Imigrante e da Estação Brás do metrô e trem. Fotos dessa Capela serão providenciadas.

 

    Outra curiosidade, é que existe até hoje, nas Oficinas da CPTM, uma marca de uma Revolução em São Paulo: Trata-se de um buraco feito por uma bala de canhão durante o conflito de 1924, 8 anos antes. Há muito tempo atrás ainda existia até o projétil no local, e após quase oitenta anos, o buraco nas vigas da estrutura da cobertura ainda resiste. Por quanto tempo mais continuará por lá? é mais um pedacinho da história da Central em São Paulo...

 

    Chegamos à conclusão a respeito deste buraco recentemente, pois tínhamos dúvida se ele teria sido criado em 1924 ou 1932. Tudo leva a crer que foi em 1924 devido a várias fontes documentais pesquisadas. A Revolução de 24 também teve como palco chave a área da Central do Brasil, Revolução esta que no futuro será tratada em uma Coluna.

 

Detalhe do local atingido. Foto: Christoffer R.

Detalhe do local atingido. Foto: Christoffer R.



FONTES BIBLIOGRÁFICAS
 

Jornal Correio do Norte (Guaratinguetá e Aparecida), N.º 01 - 07 de Maio de 1936 (Transcrição)
 

 

AGRADECIMENTOS

 

Museu Frei Galvão, Guaratinguetá - SP

A todos que colaboraram direta e indiretamente com este trabalho

 

 

 

Esta primeira coluna é obra de Marco Giffoni, licenciado em História pela Universidade de Taubaté (UNITAU), membro da ANPF e pesquisador da História Ferroviária da nossa região. Colaborou também com informações, ilustração e organização do texto Christoffer R.

 

 

 

Para saber mais:

 

Sociedade Veteranos de 32 - M.M.D.C - Site Oficial

Revolução de 32 - Quando São Paulo foi às armas pela defesa da Constituição - Por Fernando Porto, Jornal da Tarde, 04.07.1999.

1932 - Retrato de uma Guerra

1932 - A Guerra Civil Brasileira

Revolução Constitucionalista de 1932
70 anos de Revolução Constitucionalista  - Lembranças de uma batalha pelo anseio da Legalidade! - Mococa Online
 

 

 

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